VEM SENHOR JESUS!

"Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não incorre na condenação, mas passou da morte para a vida". (Jo 5,24).

SEJAM BEM VINDOS À ESSA PORTA ESTREITA DA SALVAÇÃO

"Uma só coisa peço ao Senhor e a peço incessantemente: é habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida, para admirar aí a beleza do Senhor e contemplar o seu santuário". (Sl 26,4).

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

PENITÊNCIA E RECONCILIAÇÃO: CAMINHOS DE PERFEIÇÃO E VIDA ETERNA...


PENITÊNCIA E RECONCILIAÇÃO: CAMINHOS DE PERFEIÇÃO E VIDA ETERNA...


O que é o pecado? É o território do inimigo de nossas almas; é a não vontade de Deus em todos os sentidos da vida. Todavia, em sã consciência, ninguém entra neste território sem o saber, visto que tudo em nossa vida depende sempre de nossas decisões, sejam elas boas ou más; porém, temos que entender que nenhuma tentação é superior às nossas forças, como bem ensinou São Paulo: “Não vos sobreveio tentação alguma que ultrapassasse as forças humanas. Deus é fiel: não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas com a tentação ele vos dará os meios de suportá-la e sairdes dela” (1Cor 10,13). E também São Tiago em sua carta nos exorta: “Feliz o homem que suporta a tentação. Porque, depois de sofrer a provação, receberá a coroa da vida que Deus prometeu aos que o amam. Ninguém, quando for tentado, diga: É Deus quem me tenta. Deus é inacessível ao mal e não tenta a ninguém. Cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e alicia. A concupiscência, depois de conceber, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte. Não vos iludais, pois, irmãos meus muito amados. Toda dádiva boa e todo dom perfeito vêm de cima: descem do Pai das luzes, no qual não há mudança, nem mesmo aparência de instabilidade. Por sua vontade é que nos gerou pela palavra da verdade, a fim de que sejamos como que as primícias das suas criaturas” (Tg 1,12-18).

Com efeito, todo pecado grave ou leve gera consequências, porque o pecado é o mal que gera todos os males que há; é por isso que seus efeitos nefastos são imediatos, seja em quem os comete ou naqueles que o sofrem, mesmo que sejam inocentes; todavia, para os inocentes esses efeitos são nulos, porque Deus os acolhe e os protege com sua Divina Misericórdia. Convém, porém, que se diga: ninguém peca sozinho, isto porque estamos sempre em interação uns com os outros; e mesmo um pecado aparentemente banal pode se transformar num mal irreversível, porque por traz de todo pecado se encontra o demônio disfarçado. Por isso, precisamos ter muito cuidado, visto que o mal nunca se mostra como ele é, pelo contrário, quase sempre ele se mostra como um iceberg (uma massa de gelo que deriva das regiões polares, cujo corpo fica submerso no oceano, revelando apenas sua parte aparentemente inofensiva), ou seja, como uma armadilha capaz de nos prender e destruir nos afastando para sempre do amor de Deus, caso não tenhamos o devido cuidado em evita-lo (cf. Rm 6,12-23;Hb 3,12).

Então, como evitar o pecado e não mais cometê-lo? São João, falando a esse respeito na sua primeira carta, disse: “Todo aquele que peca transgride a lei, porque o pecado é transgressão da lei. Sabeis que (Jesus) apareceu para tirar os pecados, e que nele não há pecado. Todo aquele que permanece nele não peca; e todo o que peca não o viu, nem o conheceu” (1Jo 3,4-6). Ou seja, se quisermos viver em estado de graça permanente, precisamos permanecer em Cristo Jesus, como os galhos permanecem na videira; como o Senhor mesmo diz no Evangelho de São João: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto em mim, ele o cortará; e podará todo o que der fruto, para que produza mais fruto. Vós já estais puros pela palavra que vos tenho anunciado. Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar fruto, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,1-5).

Com efeito, a realidade do pecado na qual estamos mergulhados neste mundo, nos impele ao arrependimento sincero, para assim buscarmos a santidade que o Senhor nos oferece com o perdão desses pecados, pois foi exatamente isso que Ele nos ensinou no Evangelho de São Lucas: “Digo-vos que haverá maior júbilo no céu por um só pecador que fizer penitência do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento” (Lc 15,7). Ou seja, o reconhecimento dos nossos pecados, o arrependimento e a confissão sacramental deles, a absolvição sacerdotal e o cumprimento da penitência estabelecida, nos traz de volta à obediência aos santos mandamentos e a perfeita reconciliação com Deus, nosso Pai, tendo como fruto dessa reconciliação a paz interior que tanto precisamos, pois o Senhor mesmo diz, a respeito do perdão sacramental: “Àqueles a quem perdoardes os pecados, lhes serão perdoado; àqueles a quem os retiverdes, lhes serão retidos” (Jo 20,23). Assim, esse caminho do perdão sacramental para nossa reconciliação com Deus, torna-se profundamente necessário para a nossa purificação e salvação, caso tenhamos cometido algum pecado.

Por fim, escutemos São João, ainda em sua primeira carta: “Filhinhos meus, isto vos escrevo para que não pequeis. Mas, se alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo. Ele é a expiação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo. Eis como sabemos que o conhecemos: se guardamos os seus mandamentos. Aquele que diz conhecê-lo e não guarda os seus mandamentos é mentiroso e a verdade não está nele. Aquele, porém, que guarda a sua palavra, nele o amor de Deus é verdadeiramente perfeito. É assim que conhecemos se estamos nele: aquele que afirma permanecer nele deve também viver como ele viveu” (1Jo 2,1-6).

“Feliz aquele cuja iniquidade foi perdoada, cujo pecado foi absolvido. Feliz o homem a quem o Senhor não argui de falta, e em cujo coração não há dolo. Enquanto me conservei calado, mirraram-se-me os ossos, entre contínuos gemidos. Pois, dia e noite, vossa mão pesava sobre mim; esgotavam-se-me as forças como nos ardores do verão. Então eu vos confessei o meu pecado, e não mais dissimulei a minha culpa. Disse: Sim, vou confessar ao Senhor a minha iniquidade. E vós perdoastes a pena do meu pecado. Assim também todo fiel recorrerá a vós, no momento da necessidade” (Sl 31,1-6a).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

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sábado, 16 de agosto de 2014

AS VIRTUDES TEOLOGAIS: FÉ, ESPERANÇA E CARIDADE...


AS VIRTUDES TEOLOGAIS: FÉ, ESPERANÇA E CARIDADE...


Toda dádiva boa e todo dom perfeito vêm de cima: descem do Pai das luzes, no qual não há mudança, nem mesmo aparência de instabilidade. Por sua vontade é que nos gerou pela palavra da verdade, a fim de que sejamos como que as primícias das suas criaturas”. (Tg 1,17-18). É assim que São Tiago define os dons de Deus, como dádivas perfeitas que nos levam à plenitude da felicidade, da perfeição, e com isso, à mais alta condição da glória de Deus, que é a nossa permanência Nele por toda a eternidade.

Fé, esperança e caridade são as chamadas virtudes teologais. “Segundo o Compêndio do Catecismo da [nossa] Igreja Católica, as virtudes teologais "têm como origem, motivo e objeto imediato o próprio Deus. São infundidas no homem com a graça santificante [no batismo], e tornam-nos capazes de viver em relação com a Trindade e fundamentam e animam o agir moral do cristão, vivificando as virtudes humanas.  Elas são o penhor da presença e da ação do Espírito Santo nas faculdades do ser humano". (CIC nº 384). São Paulo, na 1ª Carta aos Coríntios 13, as define como as virtudes que permanecem, porém, sendo a maior delas a caridade (o amor) (1Cor 13,13). Na Carta ao Gálatas, ele define a relação que há entre essas virtudes, primeiro a fé e o amor, dizendo que a fé opera pelo  amor (cf. Gl 5,6b); depois, na carta aos Hebreus, entre fé e esperança, onde lemos: “A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê”. (Hb 11,1).

Todavia, precisamos entender que essas virtudes precisam da autenticidade do Espírito Santo, para serem o que elas são. Então, como entender essa autenticidade e por consequência sua genuinidade? Por Cristo Jesus, e somente por Ele, na pessoa de Pedro e dos outros apóstolos e seus sucessores, que Ele mesmo escolheu e confirmou como fundamento de sua Igreja (cf. Mt 16,18-20; Lc 10,3.16). Com efeito, o profeta Isaías, assim profetizou sobre o Messias, o Ungido do Senhor: “Eis meu Servo que eu amparo, meu eleito ao qual dou toda a minha afeição, faço repousar sobre ele meu espírito, para que leve às nações a verdadeira religião” (Is 42,1). Assim, entendemos que Jesus, ao fundar a sua Igreja como seu corpo místico (Col 1,3.22-29;2,1-23), ele permanece nela e a conduz por seus representantes, com todos os sacramentos, virtudes e profissão de fé, para a salvação de toda humanidade. Desse modo, se firma a autenticidade de nossa fé católica, dom do Espírito Santo, recebido no batismo.

Então, vamos às virtudes teologais, primeiro a fé, como já disse, dom do Espírito Santo, que nos leva a crer firmemente sem nunca duvidar das verdades reveladas por Deus aos seus santos profetas e cumpridas no Novo Testamento, primeiro em Maria, mãe do Senhor, e depois em Jesus e em todos os filhos e filhas de Deus santificados pelo seu sacrifício de cruz, morte e ressurreição. Jesus nos ensinou que essa virtude teologal é sumamente importante para realizarmos a vontade do Pai, por isso, afirma: “Tudo é possível ao que crê.” (Mc 9,23). Logo, a fé é um instrumento da graça de Deus que nos capacita para toda boa obra, como escreveu São Paulo: “Porque é gratuitamente que fostes salvos mediante a fé. Isto não provém de vossos méritos, mas é puro dom de Deus. Não provém das obras, para que ninguém se glorie. Somos obra sua, criados em Jesus Cristo para as boas ações, que Deus de antemão preparou para que nós as praticássemos”. (Ef 2,8-10).

Quanto à virtude da esperança, esta é também derramada em nossos corações pelo Espírito Santo (cf. Rm 5,5); ela é a certeza da fé, e nunca decepciona, porque ela é uma convicção a respeito daquilo que Deus realiza em nosso favor, por isso, Ele já nos antecipa para nos ater seguros quanto aos seus desígnios a respeito da nossa salvação. Então, oremos ao Senhor por meio desta virtude: Senhor, tudo está em tuas mãos e ninguém conhece mais a nossa vida do que o Senhor; tudo o que somos e vivemos, tem como destino único o teu Reino de amor, por isso, estamos convictos de que jamais nos abandonarás, visto que teu amado Filho, Jesus Cristo, deu-se em sacrifício de cruz para que tivéssemos a paz definitiva na glória que preparastes para todos aqueles que ele redimiu. Assim, Senhor, seja feita a tua vontade, aqui na terra como nos céus.

E a virtude da caridade (do amor)? Esta é o “Ágape” de Deus que leva o ser humano à plenitude da perfeição de nossa natureza. Por ela somos plenamente santificados, porque Deus é amor e quem ama permanece em Deus e Deus nele (cf. 1Jo 4,8.16). Ora, em quem Deus permanece não há lugar para o pecado, mas somente para o estado de graça permanente e para os seus desígnios amorosos. Daí a necessidade do cultivo dessa e de todas as outras virtudes, porque esta é a vontade de Deus a nosso respeito, conforme o seu santo mandamento: “Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito” (Dt 6,5). E ainda, quem ama a Deus, ame também o seu irmão (cf. 1Jo 4,21): “Amarás teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18). Portanto, o amor é a essência da vida, sem o amor não há vida, não há nada, tudo é caos infindável; destarte, amemos sempre porque o Amor é próprio Deus que nos criou por amor e para o amor, e deu-nos o seu Filho para a nossa salvação.

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

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quinta-feira, 31 de julho de 2014

A IGREJA É SANTA: TAMBÉM VÓS, SEDE SANTOS COMO O VOSSO PAI CELESTE É SANTO...


A IGREJA É SANTA: LOGO, SEDE SANTOS COMO O VOSSO PAI CELESTE É SANTO...

No Credo Niceno-constantinopolitano, professamos: “Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica”. O fato é que, São Paulo, em sua carta aos efésios já havia emitido tal profissão de fé, pois lá está escrito: “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santificá-la, purificando-a pela água do batismo com a palavra, para apresentá-la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível”. (Ef. 5,25-27). E professou ainda: “Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja. Dela fui constituído ministro, em virtude da missão que Deus me conferiu de anunciar em vosso favor a realização da palavra de Deus, mistério este que esteve escondido desde a origem às gerações (passadas), mas que agora foi manifestado aos seus santos”. (Col 1,24-26).

Desse modo, creio firmemente o que a Igreja crê e ensina: a Igreja é Santa, porque ela é o Corpo de Cristo, do qual ele é a cabeça e nós somos seus membros; e o faço pelo fato de que sua origem é divina, pois foi o próprio salvador que a fundou e a mantém, como meditamos no Evangelho de São Mateus: “E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”. (Mt 16,18-19).

E o faço ainda, conforme a Igreja nos ensina no Catecismo: “Cristo e a Igreja, eis, portanto, o "Cristo total" ("Christus totus"). A Igreja é una com Cristo. Os Santos têm uma consciência bem viva desta unidade:

Alegremo-nos, portanto, e demos graças por nos termos tornado não somente cristãos, mas o próprio Cristo. Compreendeis, irmãos, a graça que Deus nos concedeu ao dar-nos Cristo como Cabeça? Admirai e rejubilai, nós nos tornamos Cristo. Com efeito, uma vez que Ele é a Cabeça e nós somos os membros, o homem inteiro é constituído por Ele e por nós. A plenitude de Cristo é, portanto, a Cabeça e os membros. O que significa isto: a Cabeça e os membros? Cristo e a Igreja.

Redemptor nos ter unam se personam cum sancta Eccies ia, quam assumpsit, exhibuit - Nosso Redentor mostrou-se como uma só pessoa com a santa Igreja, que ele assumiu.

Caput et inembra sunt quasi una persona mystica - Cabeça e membros são como uma só pessoa mística”. (CIC §795).

Sei que muitos dizem por aí, que a Igreja é santa e pecadora, dependendo da compreensão dessa colocação, não me conformo com isso, pois se essa afirmação (“a igreja é santa e pecadora”) for realmente o que diz, a Igreja teria de mudar o seu símbolo apostólico. Isto porque, na primeira Carta de São João, meditamos o seguinte: “Sabeis que (Jesus) apareceu para tirar os pecados, e que nele não há pecado. Todo aquele que permanece nele não peca; e todo o que peca não o viu, nem o conheceu”. (1Jo 3,5).

E ainda: “Filhinhos, ninguém vos seduza: aquele que pratica a justiça é justo, como também (Jesus) é justo. Aquele que peca é do demônio, porque o demônio peca desde o princípio. Eis por que o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do demônio. Todo o que é nascido de Deus não peca, porque o germe divino reside nele; e não pode pecar, porque nasceu de Deus (cf. Jo 3,5-9;1Jo 3,1-3). É nisto que se conhece quais são os filhos de Deus e quais os do demônio: todo o que não pratica a justiça não é de Deus, como também aquele que não ama o seu irmão”. (1Jo 3,6-10). Ou seja, não pode uma mesma fonte jorrar água pura e água podre (cf. Tg 3,11-12).

Com efeito, assim nos ensinou o Senhor Jesus, no Evangelho de São João: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto em mim, ele o cortará; e podará todo o que der fruto, para que produza mais fruto. Vós já estais puros pela palavra que vos tenho anunciado”. (Jo 3,1-3). E na explicação da parábola do joio, disse Jesus: “O que semeia a boa semente é o Filho do Homem. O campo é o mundo. A boa semente são os filhos do Reino. O joio são os filhos do Maligno. O inimigo, que o semeia, é o demônio. A colheita é o fim do mundo. Os ceifadores são os anjos. E assim como se recolhe o joio para jogá-lo no fogo, assim será no fim do mundo. O Filho do Homem enviará seus anjos, que retirarão de seu Reino todos os escândalos e todos os que fazem o mal e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes. Então, no Reino de seu Pai, os justos resplandecerão como o sol. Aquele que tem ouvidos, ouça”. (Mt 13,37-43).

Portanto, não chamem de Igreja aqueles que vivem dentro da Igreja, mas não obedecem ao que a Igreja ensina, não fazem a vontade de Deus como a Igreja faz e não testemunham Jesus como a Igreja testemunha; isto porque no pecado e no escândalo não existe a vontade de Deus, e onde a vontade de Deus não se faz presente, a Igreja também não se faz presente, porque a Igreja é a vontade de Deus para a salvação da humanidade. Todavia, precisamos cuidar de nossa conduta para que não seja conduta de insensatos, nos achando santos e os outros condenados; longe de nós pensarmos e agirmos assim.

Ora, quem no alerta sobre isto é São Paulo, na sua Carta aos Gálatas: “Irmãos, se alguém for surpreendido numa falta, vós, que sois animados pelo Espírito, admoestai-o em espírito de mansidão. E tem cuidado de ti mesmo, para que não caias também em tentação! Ajudai-vos uns aos outros a carregar os vossos fardos, e deste modo cumprireis a lei de Cristo. Quem pensa ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo. Cada um examine o seu procedimento. Então poderá gloriar-se do que lhe pertence e não do que pertence a outro. Pois cada um deve carregar o seu próprio fardo”. (Gl 6,1-5).

Já na Carta aos Romanos, ele escreve: “Nenhum de nós vive para si, e ninguém morre para si. Se vivemos, vivemos para o Senhor; se morremos, morremos para o Senhor. Quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor. Para isso é que morreu Cristo e retomou a vida, para ser o Senhor tanto dos mortos como dos vivos. Por que julgas, então, o teu irmão? Ou por que desprezas o teu irmão? Todos temos que comparecer perante o tribunal de Deus. Porque está escrito: Por minha vida, diz o Senhor, diante de mim se dobrará todo joelho, e toda língua dará glória a Deus (Is 45,23). Assim, pois, cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus. Deixemos, pois, de nos julgar uns aos outros; antes, cuidai em não pôr um tropeço diante do vosso irmão ou dar-lhe ocasião de queda”. (Rm 14,7-13).

Aliás, o Senhor Jesus já nos havia ensinado antes sobre isto, quando disse: “Amai os vossos inimigos, fazei bem e emprestai, sem daí esperar nada. E grande será a vossa recompensa e sereis filhos do Altíssimo, porque ele é bom para com os ingratos e maus. Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso. Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados; dai, e dar-se-vos-á. Colocar-vos-ão no regaço medida boa, cheia, recalcada e transbordante, porque, com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos vós também”. (Lc 6,35-38).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.
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sábado, 26 de julho de 2014

AJUDA-ME, SENHOR, A SER PERFEITO...(Mt 5,48).


AJUDA-ME, SENHOR, A SER PERFEITO (cf. Mt 5,48)


Senhor, ajuda-me a ser perfeito, pois não quero mais pecar...
Nem por pensamentos, palavras, atos ou omissões...
No entanto, como fazer pra isso acontecer?
Pois tento sempre me firmar nos bons propósitos...
Mas, quando menos espero, estou traindo a mim mesmo...
E caindo nas minhas próprias ciladas...
E assim, minha alma enganada, volta ao limbo de sua miséria...
E aquilo que era fortaleza em mim,
transforma-se em um antro de angústia...
E com isso, sinto-me franco como se estivésseis distante,
e eu aqui, como que sozinho, num vazio inebriante,
vendo todo progresso de minha alma se esvair...

Ajuda-me, Senhor, em minha triste condição, a não me trair mais...
Ajuda-me a ser capaz de tua fidelidade...
Assim, a capacidade de vencer a mim mesmo e todo o mal, se multiplicará...
E em mim só haverá lugar para ti e nada mais...
Porque, como disse São Francisco de Assis:
"Teu pior inimigo és tu mesmo, vence-te a ti mesmo,
e assim vencerás todos os inimigos, visíveis e invisíveis".
Senhor, é exatamente isso o que eu mais quero fazer,
mas tenho encontrado em mim mesmo um inimigo resistente...
E como que num de repente, perco facilmente a batalha começada...

Ó Senhor, chego às vezes a me cansar ou até desanimar...
É quando sinto tua mão a me amparar,
para que não caia no abismo que abri à mim mesmo,
pela tentação à que cedi...
Quantas vezes, Senhor, te pedi socorro e me socorreste...
Quantas vezes vi a morte no pecado a me rondar,
e mesmo sem querer vacilar, lhe dei alguma atenção?
Ah! Senhor, foram tantas vezes, que me envergonho só em pensar...
E mesmo assim me deste sempre uma nova chance para recomeçar...

Como viver sem ti, Senhor, que és tão bom para com todos?
Como viver sem o teu amparo, sem o teu consolo...
se tudo sem ti é só pecado, e nada mais?
Um milésimo de segundo sem tua graça,
é desespero, é desgraça, é infortúnio infernal...
Ajuda-nos, ó Senhor, em teu infinito amor à nunca vacilar...
Vem nos amparar com tua divina misericórdia,
pois, só assim veremos a tua glória...
quando no teu dia eterno vieres nos buscar... (Jo 14,1-3).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

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quarta-feira, 23 de julho de 2014

É NECESSÁRIO...



“É NECESSÁRIO ENTRARMOS NO REINO DE DEUS POR MEIO DE MUITAS TRIBULAÇÕES”. (At 14,22b).

Tudo o que fazemos na vida depende sempre de nossas decisões, sejam elas quais forem; isto acontece porque de certa forma temos autonomia em relação a tudo com que interagimos, porém, ninguém é autossuficiente o bastante para dizer: não preciso. Deus ao nos criar nos deu certa autonomia dependente, para que tendo Ele como fonte de toda vida, vivêssemos Dele para formarmos uma unidade perfeita com Ele e entre nós. A vida sem Deus é impossível, e o ser humano precisa reconhecer isto, pois somente o Espírito do Senhor une todas as coisas, e é Ele que nos dá a conhecer as graças que Deus nos prodigalizou (cf. 1Cor 2,12).

Ora, nós temos a escandalosa divisão que temos na face da terra, porque os homens abandonaram de vez o modo de ser do Espírito de Deus, que age somente naqueles que o amam. É como está escrito: “Amai a justiça, vós que governais a terra, tende para com o Senhor sentimentos perfeitos, e procurai-o na simplicidade do coração, porque ele é encontrado pelos que o não tentam, e se revela aos que não lhe recusam sua confiança; com efeito, os pensamentos tortuosos afastam de Deus, e o seu poder, posto à prova, triunfa dos insensatos. A Sabedoria não entrará na alma perversa, nem habitará no corpo sujeito ao pecado; o Espírito Santo educador (das almas) fugirá da perfídia, afastar-se-á dos pensamentos insensatos, e a iniquidade que sobrevém o repelirá”. (Sb 1,1-5).

Uma coisa é alguém pensar por si mesmo ou a partir das outras criaturas; outra bem diferente é alguém pensar e agir a partir da sabedoria do Espírito Santo, como nos ensinou São Paulo (cf. 1Cor 2,1-8). Ora, como Filho de Deus, Jesus nos ensina a pensar e agir como filhos e filhas de Deus, por meio da obediência perfeita do Espírito Santo. Viver essa comunhão de vida com Deus, pelo seu Espírito que habita em nós, é experimentar a familiaridade divina, é viver espiritualmente neste mundo. Pois, “O Senhor é Espírito, e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade”. (2Cor 3,17).

Deus nos enviou o seu Filho, Jesus Cristo (cf. Jo 3,16-17), e por meio Dele nos deu o Seu Espírito (cf. Jo 14,15-17) que nos ensina a conhecer todas as coisas (cf. Jo 14,26). E que conhecimento é esse? Deus é único e Pai de nossas almas; e porque nos ama, nos enviou Seu Filho único, nascido da Virgem Maria (cf. Lc 1,26-38), para que crendo nele, vivêssemos a unidade perfeita entre nós pelo seu Espírito, que nos faz nascer de novo para um viver novo como seus filhos e filhas. Jesus nos revelou ainda que este mundo está passando por um processo de renovação definitiva, e que Deus Pai, tem preparado para aqueles que o amam, o seu Reino de amor, de paz, de verdade e justiça; onde não há maldade nem morte nem finitude alguma.

Certa feita, alguém perguntou a Jesus: “Quando virá o Reino de Deus?” Ao que Jesus respondeu: “O Reino de Deus não virá de um modo ostensivo. Nem se dirá: Ei-lo aqui; ou: Ei-lo ali. Pois o Reino de Deus já está no meio de vós”. (Lc 17,20-21). Ou seja, o Reino de Deus em sua visibilidade temporal é a Igreja, e Jesus é o Rei que governa sua Igreja, tendo como primeiro representante o Santo Padre, o Papa; depois os bispos (sucessores dos apóstolos), padres, diáconos, religiosos, e todo povo de Deus. Tal e qual as primeiras comunidades apostólicas, a Igreja é católica (universal), apostólica (fundada sob os apóstolos), cuja sede fica na Colina Vaticana em Roma. Assim, a Igreja é, de fato, Sacramento Universal da Salvação, aberta e pronta para receber todas as almas que se convertem e são destinas aos céus. Todavia, temos que entender ainda que a Igreja está no mundo como o trigo em meio ao joio, como Jesus menciona na parábola. Porém, ela tem a fecundidade e a assistência do Espírito Santo para que, como trigo que é, cresça e morra, e dê milhões de frutos até a colheita definitiva no grande e terrível dia do Senhor (cf. Jl 2).

Com efeito, a Igreja tem experimentado constantemente esse ser “trigo esmagado”, pois, sem dúvida alguma, os ataques maléficos contra o Reino de Deus, presente na Igreja, têm sido frequentes e ininterruptos, seja pelos meios de comunicação social, seja pelos governos instituídos, detentores dos poderes temporais; seja ainda pelas instituições protestantes, espiritualistas, maçônicas, materialistas, ateias etc., que regem esses governos; quer também pelos mais diversos grupos notadamente antagônicos, como bandas de rock, igrejas satânicas, instituições abortistas e/ou homo afetivas com suas provocações e imposições, como se fossem elas as perseguidas, etc. Ora, falar sobre esses perseguidores e seus instrumentos de perseguição, é tornar-se alvos precisos de suas intolerâncias, e quem sabe até, tornar-se mártires por denunciar tais perseguições abertamente.

Eis o que ensinou São Paulo a esse respeito: “Nota bem o seguinte: nos últimos dias haverá um período difícil. Os homens se tornarão egoístas, avarentos, fanfarrões, soberbos, rebeldes aos pais, ingratos, malvados, desalmados, desleais, caluniadores, devassos, cruéis, inimigos dos bons, traidores, insolentes, cegos de orgulho, amigos dos prazeres e não de Deus, ostentarão a aparência de piedade, mas desdenharão a realidade. Dessa gente, afasta-te!” (2Tm 3,1-5). E ainda: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor: comportai-vos como verdadeiras luzes. Ora, o fruto da luz é bondade, justiça e verdade. Procurai o que é agradável ao Senhor, e não tenhais cumplicidade nas obras infrutíferas das trevas; pelo contrário, condenai-as abertamente. Porque as coisas que tais homens fazem ocultamente é vergonhoso até falar delas. Mas tudo isto, ao ser reprovado, torna-se manifesto pela luz. E tudo o que se manifesta deste modo torna-se luz. Por isto (a Escritura) diz: Desperta, tu que dormes! Levanta-te dentre os mortos e Cristo te iluminará (Is 26,19; 60,1)!” (Ef 5,8-14).

Portanto, eis a resposta do Senhor Jesus à tudo isso que está acontecendo: “O que vos digo na escuridão, dizei-o às claras. O que vos é dito ao ouvido, publicai-o de cima dos telhados. Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena. Não se vendem dois passarinhos por um asse? No entanto, nenhum cai por terra sem a vontade de vosso Pai. Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois! Bem mais que os pássaros valeis vós. Portanto, quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante de meu Pai que está nos céus. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus”. (Mt 10,28-33).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

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quinta-feira, 17 de julho de 2014

A TÊMPERA DOS MÁRTIRES...

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A TÊMPERA DOS MÁRTIRES...

Das Homilias de São João Crisóstomo, bispo
(Hom. De gloria in tribulationibus, 2.4: PG 51, 158-159.162-164)(Séc.IV)

Consideremos a sabedoria de Paulo. Que diz ele? Eu entendo que os sofrimentos do tempo presente nem merecem ser comparados com a glória que deve ser revelada em nós (Rm 8,18). Por que, exclama, me falais das feridas, dos tormentos, dos altares, dos algozes, dos suplícios, da fome, do exílio, das privações, dos grilhões e das algemas? Ainda que invoqueis todas as coisas que atormentam os homens, nada podeis mencionar que esteja à altura daqueles prêmios, daquelas coroas, daquelas recompensas. Pois as provações cessam com a vida presente, ao passo que a recompensa é imortal, permanecendo para sempre.

Também isto insinuava o Apóstolo em outro lugar, quando dizia: O que no presente é insignificante e momentânea tribulação (cf. 2Cor 4,17). Ele diminuía a quantidade pela qualidade, e alivia a dureza pelo breve espaço de tempo. Como as tribulações que então sofriam eram penosas e duras por natureza, Paulo se serve de sua brevidade para diminuir-lhe a dureza, dizendo: O que no presente é insignificante e momentânea tribulação, acarreta para nós uma glória eterna e incomensurável. E isso acontece, porque voltamos os nossos olhares para as coisas invisíveis e não para as coisas visíveis. Pois o que é visível é passageiro, mas o que é invisível é eterno (cf. 2Cor 4,17-18).

Vede como é grande a glória que acompanha a tribulação! Vós mesmos sois testemunhas do que dizemos. Antes mesmo que os mártires tenham recebido as recompensas, os prêmios, as coroas, enquanto ainda se vão transformando em pó e cinza, já acorremos com entusiasmo para honrá-los, convocando uma assembleia espiritual, proclamando o seu triunfo, exaltando o sangue que derramaram, os tormentos, os golpes, as aflições e as angústias que sofreram. Assim, as próprias tribulações são para eles uma fonte de glória, mesmo antes da recompensa final.

Tendo refletido sobre estas coisas, irmãos caríssimos, suportemos generosamente todas as adversidades que sobrevierem. Se Deus as permite, é porque são úteis para nós. Não percamos a esperança nem a coragem, prostrados pelo peso dos sofrimentos, mas resistamos com fortaleza e demos graças a Deus pelos benefícios que nos concedeu. Deste modo, depois de gozarmos dos seus dons na vida presente, alcançaremos os bens da vida futura, pela graça, misericórdia e bondade de nosso Senhor Jesus Cristo. A ele pertencem a glória e o poder, com o Espírito Santo, agora e sempre e pelos séculos. Amém.


Paz e Bem!

quinta-feira, 26 de junho de 2014

O HÁBITO FRANCISCANO


A primeira coisa que chama a atenção de quem se aproxima dos franciscanos é o hábito. Porque suscita curiosidade e perplexidade, dado que a forma e a cor variam segundo as diversas famílias franciscanas, seja masculina que feminina. Por isso, uma das perguntas mais freqüentes dos peregrinos e turistas que vão à Basílica de São Francisco, onde é fácil confrontar-se, é está: porque negro ou cinza? Mas o hábito franciscano não é marrom? Neste artigo daremos uma resposta ao argumento do ponto de vista da forma e cor, sem mencionar o significado teológico-espiritual do hábito franciscano, que merece ser estudado à parte.

Hoje nenhuma das ordens ou congregações franciscanas, nem pela forma, nem pela cor, veste o hábito de São Francisco que era em forma de cruz e de cor acinzentada ou de terra, resultado da mistura, em partes iguais, de fios de lã branca e negra ou castanha escuro. Existe quem afirma que o Santo de Assis e os seus companheiros não se vestiam de forma diferente dos pobres e camponeses de seu tempo, mas em seus escritos e biografias se diz alguma coisa diferente. 

O certo é que o modo de se vestir dos frades menores (túnica longa, capuz, corda e calças) era muito mais pobre do que dos outros religiosos de então, e isto lhes permitia estar mais próximos aos indigentes e mendicantes, mas não se pode negar que foi um verdadeiro distintivo religioso, que os distinguia dos seculares. As duas regras de São Francisco e as biografias se referem em particular mais a humildade do hábito dos frades menores que da cor ou da forma da túnica e do capuz. Não negligenciando o aspecto externo, a coisa mais importante nos inícios foi à modéstia e a pobreza no vestir. Mas, quando a Regra bulada impõe aos frades de não julgar, nem desprezar “aqueles que vestem roupas suaves e coloridas”, se diz, na prática, que a cor de seu hábito deveria ser natural.
 
As biografias e as relíquias do Santo nos permitem assegurar que as túnicas tinham a forma de cruz ou de “tau”, de modo a recordar que, o irmão Menor deve exprimir em si mesmo os sofrimentos do mundo. O capuz que encontramos nas primeiras representações dos frades e de São Francisco é, de costume, pontudo e alongado, similar a estes dos Capuchinhos. Aquele conservado nas relíquias da Basílica tem exatamente o aspecto de uma manga (de roupa), de modo que muitos não concordam que se trata de um capuz, que foi posto no lugar da manga esquerda que está faltando.

Existem outros capuzes daquele período, mais curtos e com a extremidade arredondada, pelo qual não se pode falar de um único modelo de capuz para toda a ordem. Uma outra característica é que o capuz primitivo era costurado ao colo, mas bem cedo foi substituído por um capuz separado da túnica, que passava pela cabeça e apoiava-se amplamente sobre o ombro e ao redor do pescoço em modo de prega. Esta prega foi-se alargando ao longo dos séculos, até obter a forma do capuz atual dos Menores, Conventuais e Terciários Regulares. Então, desta forma, fala-se de cor. 

No Espelho de Perfeição se fala que, entre todos os outros pássaros, Francisco amava com predileção as cotovias, chamadas “de capuz” porque “tem o capuz como os religiosos e é um humilde pássaro...a vestimenta da cotovia, a sua pena, isto é, tem a cor da terra: assim oferece aos religiosos o exemplo de não ter vestes elegantes e de belas tinturas, mas de modesto valor e cor semelhante a terra, que é o mais humilde dos outros elementos” ( FF. 113).

A terra todavia, como todos sabem tem uma infinidade diversa de tonalidades. Tomás de Celano, no Tratado dos Milagres, fala de um “pano cinzento” como aquele dos cistercienses de Oltremare, que Francisco moribundo pede a Jacoba de Settesoli para o seu funeral. A referencia mais direta à cor do hábito minoritico é aquele da Crônica de Roger de Wendover (falecido em 1236) e de Mateus de Paris, onde se diz que “os frades chamados Menores... caminham descalços, com corda na cintura, túnicas cinza longas até as tornozelos e remendadas, com um capuz vil e áspero. 

Em um documento de 1223, o rei da Inglaterra ordenava ao vice conde de Londres a aquisição de certa quantidade de panos, metade de “blaunchet” ou branco para os Pregadores ou Dominicanos, e outra metade “russet” para os frades menores de Reading. O “russet” era o “rusetus pannus” o pano avermelhado, resultado da mistura natural de lã branca e marrom castanha. As Constituições de Narbona de 1260 estabeleciam que “ as túnicas externas não sejam nem de tudo negras, nem de tudo brancas”, deixando então uma ampla margem as tonalidades de cinza. 

Nos afrescos de Giotto da Basílica superior de Assis é comum encontrar em uma mesma imagem, hábitos cinza e avermelhados, sempre, porém em tonalidades claras. As Constituições Farinerie de 1354 prescrevem, no entanto, que os superiores não permitam o uso dos panos com “tinturas de diversas cores, nem muito próximo ao branco, nem ao negro”. 

A variedade de cores dos hábitos primitivos deu-se principalmente pela variedade das cores naturais da lã negra, que por vezes tendia ao marrom, e também pelo fato de que o pano para as túnicas não era confeccionado ainda expressamente para os frades. Estes, no mais eram adquiridos no mercado pelos benfeitores dos frades. Eram estes selecionados pela cor e pela qualidade, também se o pano presenteado superava o controle dos superiores, segundo os Decretos de João XXII (1317) e de Benedito XII (1336). Uma maior rigidez quanto a cor, se observa a partir da divisão da Ordem entre Observantes e Conventuais acontecida em 1517, sobretudo pelo valor simbólico do cinza, que recorda as cinzas da penitencia e o pó do qual fomos criados. O cinza foi à cor oficial de todas as famílias franciscanas até a metade do século XVIII. Tanto é verdade que, devido à dificuldade para ter um pano tal em quantidade suficiente, sucedeu que as Constituições dos Observantes e Capuchinhos dispuseram que cada província fabricasse os próprios panos para obter a máxima uniformidade. 

Assim, por exemplo, o Capítulo Geral de 1694 da Regular Observância ordenava que fabricassem “panos de tudo similar na cor e na qualidade, no entrançado e na espessura, tecidos com lã branca e negra mesclada em uma proporção tal que em juízo dos peritos resulte um pano cinza como vemos nos hábitos e mantos de N. P. S. Francisco, S. Bernardino de Sena e S. João de Capistrano, os quais, por conservando-se em diversas províncias e paises, são de uma mesma cor cinza, mais ou menos claro”. 

Nos Menores Conventuais observa-se já na segunda metade de 1700, certa tendência pelo negro, não obstante as Constituições Urbanas de 1803 que obrigava ainda o uso do hábito cinza. A prescrição veio a desaparecer na edição de 1823, em parte porque a supressão napoleônica extinguiu as corporações religiosas, os seus membros se viram obrigados a usar o hábito talar negro do clero secular. Restaurada a Ordem, os frades preferiram continuar com o hábito negro. Hoje, porém, o cinza tradicional esta retornando, de modo que já o vestem quase todos os frades conventuais da Ásia, África, Austrália e América, e algumas províncias da Europa. 

Os Frades da Observância mudaram do cinza para o marrom pouco mais de um século atrás. Iniciaram na França e foi imposto para toda a Ordem no capítulo de Assis em 1895, quando o papa Leão XIII reunificou em uma só as diversas famílias da Observância: Observantes, Alcantarinos, Recoletos e Reformados (“a cor sintética das vestes externas assemelha-se a cor da lã natural escura com tendência ao vermelho, cor que em italiano se chama marrone e em francês marron”). 

Os Menores Capuchinhos seguiram da mesma forma a evolução dos Observantes, também para evitar qualquer diferença local, em 1912 se estabeleceu que a cor do hábito devia ser castanho, como aquele dos observantes, ainda que um pouco mais amarelado (“a cor deve ser castaneum, em italiano castagno, em francês marron, na inglês chestnut, em alemão kastanienbraun, e espanhol castaño”). O hábito que mais se assemelha ao de São Francisco e dos primeiros frades menores, é aquele dos Capuchinhos, sobretudo pelo capuz alongado e costurado na gola da túnica. O hábito dos Observantes ou Menores caracteriza-se por ser mais ajustado e pelo capuz ser destacado da túnica que cai sobre o ombro em forma de manta, cortada dos lados, mais longa e pontuda atrás, até a cintura. O hábito dos Conventuais é similar ao dos Observantes, difere somente no capuz que é mais redondo e o manto mais longo, sem igualar as curvas. O hábito dos Terciários Regulares ou frades da TOR, pouco tempo faz era semelhante ao dos Conventuais pela forma e pela cor, mas recentemente retornaram ao cinza tradicional, com manto longo e pontudo nas costas. Nos últimos tempos estão surgindo outras congregações franciscanas com hábitos diversos, mais ou menos semelhantes àqueles já citados, com túnica e capuz cinza ou marrom. Existem algumas também com tendência ao azul celeste, como aquele dos Frades da Imaculada e outros de cor amarronzada clara ou creme e mesmo verde.
 
Além dessas diferenças de forma e cor, o que distingue os franciscanos e franciscanas dos membros de outras Ordens ou Congregações religiosas da Igreja, é o uso exclusivo do cordão de lã branca, que Francisco escolhe para substituir o cinto de couro em cumprimento do mandamento evangélico de Cristo aos seus apóstolos: “não levem nada pelo caminho...nem cinto...” (cf. Mt 10). Ao início não existia um número estabelecido de nós que tivesse a função prática de encurtar a corda, de modo que, não tocasse a terra. Com o passar do tempo, se impôs à tradição dos três nós, como se fosse para recordar os três votos da profissão religiosa: obediência, castidade e pobreza. 



Enfim, para aquele que trás os calçados, o Pobrezinho caminhou sempre descalço, sempre conforme o mandamento de Jesus: “não usem sandálias...” Somente nos dois últimos anos de sua vida, para esconder as faixas ensangüentadas dos estigmas dos pés, teve de usar calçado de pele ou de pano, como se vêem ainda nas relíquias da Basílica em Assis. A Regra não impõe nem de andar descalço, nem de utilizar sandálias. Descreve, no entanto, que os frades possam utilizar calçados em caso de necessidade. As sandálias, de qualquer modo, se impuseram bem de pressa na ordem, como se pode ver nos afrescos de Giotto, onde as trazem todos os frades, também São Francisco. Mais tarde, por volta de 1400, os frades das reformas que moravam nos eremitérios usavam uma espécie de sandálias com as solas altas de madeira chamadas “zoccoli”, e eis porque, na Itália, os Observantes foram popularmente conhecidos com o nome de “zoccolanti”. Mais recentemente, as diversas Constituições deixaram de impor as sandálias aos Menores e aos Capuchinhos, e os sapatos aos Conventuais, mas tais disposições só foram tiradas depois do Concílio, sendo que não é estranho encontrar Conventuais com sandálias e barba, Menores com sapatos, e Capuchinhos sem barba. 

Enfim, passada a rigidez dos últimos séculos, fazemos votos então, de não perdermos o espírito dos inícios, quando, daquela época pela forma e pela cor, se insistia no aspecto da pobreza e da aspereza dos tecidos e nas cores naturais do cinza e da terra, sinal de humildade e penitência. Mesmo que a este propósito, São Francisco escreveu na regra que os ministros poderiam proceder “diversamente segundo Deus” (RB 2). 


Por Frei Tomás Gálvez, OFMConv. (in memoriam)
Revista San Francesco – giugno 2004, p. 40-43.

sábado, 7 de junho de 2014

QUANDO VIER O PARÁCLITO, O ESPÍRITO DA VERDADE, ENSINA-VOS-A TODA VERDADE...


QUANDO VIER O PARÁCLITO, O ESPÍRITO DA VERDADE, ENSINA-VOS-A TODA VERDADE...

Pensar a vida sem o Espírito de Deus é pensa-la conforme o mundo e não conforme Deus. Ora, o Senhor Jesus prometeu (cf. Jo 15,26) que enviaria o Espírito Santo para nos ensinar, nos defender e nos dar todo apoio e assistência necessária para permanecermos fiéis até que se complete o tempo de sua segunda vinda e a nossa ida definitiva para a glória do seu Reino, onde não há morte nem choro nem luto nem dor (cf. Jo 14,1-4).

O Espírito Santo de Deus é o perfeito coordenador de nossas ações enquanto de nossa estadia neste mundo, basta que ouçamos suas moções e nos deixemos conduzir por Ele, como o fizeram os profetas, Maria Santíssima, os apóstolos e todos os santos. Pois assim disse o Senhor: “Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade, porque não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão”. (Jo 16,13). Ora, creio que todos nós desejamos ver o desfecho final da obra da criação, isto é, a vinda da plenitude do Reino de Deus, pois do jeito que estamos vivendo atualmente, a paz entre os povos é impossível.

Então, há de se perguntar, como identificarmos a presença do Espírito de Deus em nossa vida? Ora, os meios para isto os batizados já o tem, pois quem foi batizado, foi batizado em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ou seja, em nome da Santíssima Trindade e se tornou filho/a de Deus. Essa filiação divina nos torna aptos à esse reconhecimento, pois é a vontade de Deus que sejamos um só com Ele, por seu Filho, Jesus Cristo, no Espírito Santo. Para que isto aconteça precisamos dissipar de nossas mentes todo e qualquer mau pensamento ou vãs inclinações para o pecado; e o jeito mais preciso para isto aconteça é usar o dom da oração, pois com essa arma poderosa, podemos expulsar de nossa mente tudo o que não é do Espírito de Deus.

Sabemos, por graça de Deus, que naturalmente podemos identificá-lo em meio à criação, isto por meio da visibilidade de sua obra, pois conhecendo a obra se conhece o bem feitor que a produziu; todavia, o Senhor mesmo se nos deu a conhecer pelo seu Espírito Santo que enviou por seu Filho, Jesus Cristo, autor e consumador da nossa salvação. Quem crê no Filho de Deus tem a vida. Mas, o crê em Cristo não é algo isolado ou à mercê do querer humano; mais que isto, crê é fazer parte do Corpo Místico de Cristo, que é a sua Igreja, fundada e mantida por Ele na pessoa de São Pedro, príncipe dos apóstolos. À ela o Senhor enviou o Seu Espírito para que a nossa fé fosse uma fé carismática, isto é, dom do Seu Espírito Santo em nós.

Com efeito, Santo Hilário, escreveu a respeito dessa ação do Espírito Santo para identificarmos Deus em nossa vida e por nosso proceder; vejamos o que ele disse: “O Senhor mandou batizar em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, quer dizer, professando a fé no Criador, no Filho e no que é chamado Dom de Deus. Um só é o Criador de todas as coisas. Pois um só é Deus Pai, de quem tudo procede; um só é o Filho Unigênito, nosso Senhor Jesus Cristo, por quem tudo foi feito; e um só é o Espírito, que foi dado a todos nós.

Todas as coisas são ordenadas segundo suas capacidades e méritos: um só é o Poder, do qual tudo procede; um só é o Filho, por quem tudo começa; e um só é o Dom, que é penhor da esperança perfeita. Nada falta a tão grande perfeição. Tudo é perfeitíssimo na Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo: a infinidade no Eterno, o esplendor na Imagem, a atividade no Dom.

Escutemos o que diz a palavra do Senhor sobre a ação do Espírito em nós: Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de compreendê-las agora (Jo 16,12), É bom para vós que eu parta: se eu me for, vos mandarei o Defensor (cf. Jo 16,7). Em outro lugar: Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará uni outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade (Jo 14,16-17). Ele vos conduzirá à plena verdade. Pois ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido; e até as coisas futuras vos anunciará. Ele me glorificará porque receberá do que é meu (Jo 16,13-14).

Estas palavras, entre muitas outras, foram ditas para nos dar a conhecer a vontade daquele que confere o Dom e a natureza e a perfeição do mesmo Dom. Por conseguinte, já que a nossa fraqueza não nos permite compreender nem o Pai nem o Filho, o Dom que é o Espírito Santo, estabelece um certo contato entre nós e Deus, para iluminar a nossa fé nas dificuldades relativas à encarnação de Deus.

Assim, o Espírito Santo é recebido para nos tornar capazes de compreender. Como o corpo natural do homem permaneceria inativo se lhe faltassem os estímulos necessá­rios para as suas funções - os olhos, se não há luz ou não é dia, nada podem fazer; os ouvidos, caso não haja vozes ou sons, não cumprem seu ofício; o olfato, se não sente nenhum odor, para nada serve; não porque percam a sua capacidade natural por falta de estímulo para agir - assim é a alma humana: se não recebe pela fé o Dom que é o Espírito, tem certamente uma natureza capaz de conhecer a Deus, mas falta-lhe a luz para chegar a esse conhecimento.

Este Dom de Cristo está inteiramente à disposição de todos e encontra-se em toda parte; mas é dado na medida do desejo e dos méritos de cada um. Ele está conosco até o fim do mundo; ele é o consolador no tempo da nossa espera; ele, pela atividade dos seus dons, é o penhor da nossa esperança futura; ele é a luz do nosso espírito; ele é o esplendor das nossas almas”. (Do Tratado Sobre a Trindade, de Santo Hilário, bispo (Lib. 2,1.33.35: PL 10,50-51.73-75)(Séc. IV)

Portanto, eis a razão de ser de nossa fé católica e de nossa vida, deixar-nos conduzir pelo Espírito Santo de Deus, como bem escreveu São Paulo: “todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus”. (Rm 8,14). Porque fomos batizados para isto, como ele mesmo disse: “Ou ignorais que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na sua morte pelo batismo para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova”. (Rm 6,3-4). Pois: “Todo aquele que está em Cristo é uma nova criatura. Passou o que era velho; eis que tudo se fez novo!” (2Cor 5,17).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

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domingo, 23 de março de 2014

O HÁBITO FRANCISCANO, UMA CURIOSA HISTÓRIA DA VESTE MEDIEVAL

O HÁBITO FRANCISCANO, UMA CURIOSA HISTÓRIA DA VESTE MEDIEVAL



A primeira coisa que chama a atenção de quem se aproxima dos franciscanos é o hábito. Porque suscita curiosidade e perplexidade, dado que a forma e a cor variam segundo as diversas famílias franciscanas, seja masculina ou feminina. Por isso, uma das perguntas mais frequentes dos peregrinos e turistas que vão à Basílica de São Francisco, onde é fácil confrontar-se, é esta: porquê negro ou cinza? Mas o hábito franciscano não é castanho?

Neste artigo daremos uma resposta ao argumento do ponto de vista da forma e da cor, sem mencionar o significado teológico-espiritual do hábito franciscano, que merece ser estudado à parte.

Hoje nenhuma das ordens ou congregações franciscanas, nem pela forma, nem pela cor, veste o hábito de São Francisco, que era em forma de cruz e de cor acinzentada ou de terra, resultado da mistura, em partes iguais, de fios de lã branca e negra ou castanha escuro. Existe quem afirme que o Santo de Assis e os seus companheiros não se vestiam de forma diferente dos pobres e camponeses do seu tempo, mas nos seus escritos e biografias diz-se alguma coisa diferente.

O certo é que o modo de vestir dos frades menores (túnica longa, capuz, corda e calças) era muito mais pobre do que o dos outros religiosos de então, e isto permitia-lhes estar mais próximos dos indigentes e mendicantes, mas não se pode negar que foi um verdadeiro distintivo religioso, que os distinguia dos seculares.

As duas regras de São Francisco e as biografias referem-se em particular mais à humildade do hábito dos frades menores que da cor ou da forma da túnica e do capuz. Não negligenciando o aspecto externo, a coisa mais importante nos inícios foi a modéstia e a pobreza no vestir. Mas, quando a Regra bulada impõe aos frades de não julgar, nem desprezar "aqueles que vestem roupas suaves e coloridas", diz-se, na prática, que a cor do seu hábito deveria ser natural.


 
As biografias e as relíquias do Santo permitem-nos assegurar que as túnicas tinham a forma de cruz ou de "tau", de modo a recordar que, o irmão menor deve exprimir em si mesmo os sofrimentos do mundo. O capuz que encontramos nas primeiras representações dos frades e de São Francisco é, de costume, pontudo e alongado, similar aos dos Capuchinhos. Aquele conservado nas relíquias da Basílica tem exatamente o aspecto de uma manga (de roupa), de modo que muitos não concordam que se trate de um capuz, que foi posto no lugar da manga esquerda que está faltando.

Existem outros capuzes daquele período, mais curtos e com a extremidade arredondada, pelo qual não se pode falar de um único modelo de capuz para toda a ordem. Uma outra característica é que o capuz primitivo era costurado ao colo, mas bem cedo foi substituído por um capuz separado da túnica, que passava pela cabeça e se apoiava amplamente sobre o ombro e ao redor do pescoço, em modo de prega. Esta prega foi-se alargando ao longo dos séculos, até obter a forma do capuz atual dos Menores, Conventuais e Terceiros Regulares. Então, desta forma, fala-se da cor.

No Espelho de Perfeição fala-se que, entre todos os outros pássaros, Francisco amava com predileção as cotovias, chamadas "de capuz" porque "têm o capuz como os religiosos e é um humilde pássaro... a vestimenta da cotovia, a sua pena, isto é, tem a cor da terra: assim oferece aos religiosos o exemplo de não ter vestes elegantes e de belas tinturas, mas de modesto valor e cor semelhante à terra, que é o mais humilde dos elementos" ( FF. 113).
A terra todavia, como todos sabem, tem uma infinidade diversa de tonalidades. Tomás de Celano, no Tratado dos Milagres, fala de um "pano cinzento" como aquele dos cistercienses de Oltremare, que Francisco moribundo pede a Jacoba de Settesoli para o seu funeral.

A referencia mais direta à cor do hábito minorítico é aquele da Crônica de Roger de Wendover (falecido em 1236) e de Mateus de Paris, onde se diz que "os frades chamados Menores... caminham descalços, com corda na cintura, túnicas cinza longas até aos tornozelos e remendadas, com um capuz vil e áspero.

Num documento de 1223, o rei da Inglaterra ordenava ao vice conde de Londres a aquisição de certa quantidade de panos, metade de "blaunchet" ou branco para os Pregadores ou Dominicanos, e outra metade "russet" para os frades menores de Reading. O "russet" era o "rusetus pannus" o pano avermelhado, resultado da mistura natural de lã branca e castanha. As Constituições de Narbona de 1260 estabeleciam que " as túnicas externas não sejam nem de tudo negras, nem de tudo brancas", deixando então uma ampla margem às tonalidades de cinza.

Nos frescos de Giotto da Basílica Superior de Assis é comum encontrar, numa mesma imagem, hábitos cinza e avermelhados, sempre, porém em tonalidades claras. As Constituições Farinerie de 1354 prescrevem, no entanto, que os superiores não permitam o uso dos panos com "tinturas de diversas cores, nem muito próximo ao branco, nem ao negro".

A variedade de cores dos hábitos primitivos deu-se principalmente pela variedade das cores naturais da lã negra, que por vezes tendia ao castanho, e também pelo facto de que o pano para as túnicas não era ainda confeccionado expressamente para os frades. Estes, no mais eram adquiridos no mercado pelos benfeitores dos frades. Eram estes selecionados pela cor e pela qualidade, também se o pano presenteado superava o controle dos superiores, segundo os Decretos de João XXII (1317) e de Bento XII (1336).

Uma maior rigidez quanto à cor, observa-se a partir da divisão da Ordem entre Observantes e Conventuais, acontecida em 1517, sobretudo pelo valor simbólico do cinza, que recorda as cinzas da penitencia e o pó do qual fomos criados. O cinza foi à cor oficial de todas as famílias franciscanas até à metade do século XVIII. Tanto é verdade que, devido à dificuldade para ter um pano tal em quantidade suficiente, sucedeu que as Constituições dos Observantes e Capuchinhos dispuseram que cada província fabricasse os próprios panos para obter a máxima uniformidade.

Assim, por exemplo, o Capítulo Geral de 1694 da Regular Observância ordenava que fabricassem "panos de tudo similar na cor e na qualidade, no entrançado e na espessura, tecidos com lã branca e negra mesclada numa proporção tal que, em juízo dos peritos, resulte um pano cinza como vemos nos hábitos e mantos de N. P. S. Francisco, S. Bernardino de Sena e S. João de Capistrano, os quais, por conservando-se em diversas províncias e países, são de uma mesma cor cinza, mais ou menos claro".

Nos Menores Conventuais observa-se já na segunda metade de 1700, certa tendência pelo negro, não obstante as Constituições Urbanas de 1803 que obrigava ainda o uso do hábito cinza. A prescrição veio a desaparecer na edição de 1823, em parte porque a supressão napoleônica extinguiu as corporações religiosas, os seus membros viram-se obrigados a usar o hábito talar negro do clero secular. Restaurada a Ordem, os frades preferiram continuar com o hábito negro. Hoje, porém, o cinza tradicional esta retornando, de modo que já o vestem quase todos os frades conventuais da Ásia, África, Austrália e América, e algumas províncias da Europa.

Os Frades da Observância mudaram do cinza para o castanho pouco mais de um século atrás. Iniciaram na França e foi imposto para toda a Ordem no capítulo de Assis em 1895, quando o papa Leão XIII reunificou numa só as diversas famílias da Observância: Observantes, Alcantarinos, Recoletos e Reformados ("a cor sintética das vestes externas assemelha-se à cor da lã natural escura com tendência ao vermelho, cor que em italiano se chama marrone e em francês marron").

Os Menores Capuchinhos seguiram da mesma forma a evolução dos Observantes, também para evitar qualquer diferença local. Em 1912 estabeleceu-se que a cor do hábito devia ser castanho, como aquele dos observantes, ainda que um pouco mais amarelado ("a cor deve ser castaneum, em italiano castagno, em francês marron, em inglês chestnut, em alemão kastanienbraun, e espanhol castaño"). O hábito que mais se assemelha ao de São Francisco e dos primeiros frades menores, é o dos Capuchinhos, sobretudo pelo capuz alongado e costurado na gola da túnica.

O hábito dos Observantes ou Menores caracteriza-se por ser mais ajustado e pelo capuz ser destacado da túnica que cai sobre o ombro em forma de manta, cortada dos lados, mais longa e pontuda atrás, até a cintura. O hábito dos Conventuais é similar ao dos Observantes, difere somente no capuz que é mais redondo e o manto mais longo, sem igualar as curvas. O hábito dos Terceiros Regulares ou frades da TOR, pouco tempo faz era semelhante ao dos Conventuais pela forma e pela cor, mas recentemente retornaram ao cinza tradicional, com manto longo e pontudo nas costas.

Nos últimos tempos estão surgindo outras congregações franciscanas com hábitos diversos, mais ou menos semelhantes àqueles já citados, com túnica e capuz cinza ou castanho.

Existem algumas também com tendência ao azul celeste, como o dos Frades da Imaculada e outros de cor acastanhada clara ou creme, e mesmo verde.
Além dessas diferenças de forma e cor, o que distingue os franciscanos e franciscanas dos membros de outras Ordens ou Congregações religiosas da Igreja, é o uso exclusivo do cordão de lã branca, que Francisco escolhe para substituir o cinto de couro em cumprimento do mandamento evangélico de Cristo aos seus apóstolos: "não levem nada pelo caminho...nem cinto..." (cf. Mt 10). Ao início não existia um número estabelecido de nós que tivesse a função prática de encurtar a corda, de modo que, não tocasse a terra. Com o passar do tempo, impôs-se a tradição dos três nós, como se para recordar os três votos da profissão religiosa: obediência, castidade e pobreza.

Enfim, quanto ao calçado, o Pobrezinho caminhou sempre descalço, conforme o mandamento de Jesus: "não usem sandálias..." Somente nos dois últimos anos da sua vida, para esconder as faixas ensanguentadas dos estigmas dos pés, teve de usar calçado de pele ou de pano, como se veem ainda nas relíquias da Basílica em Assis.

A Regra não impõe nem de andar descalço, nem de utilizar sandálias. Descreve, no entanto, que os frades possam utilizar calçado em caso de necessidade.

As sandálias, de qualquer modo, bem depressa se impuseram na ordem, como se pode ver nos frescos de Giotto, onde as trazem todos os frades e também São Francisco. Mais tarde, por volta de 1400, os frades das reformas que moravam nos eremitérios usavam uma espécie de sandálias com as solas altas de madeira chamadas "zoccoli", e eis porque, na Itália, os Observantes foram popularmente conhecidos com o nome de "zoccolanti".

Mais recentemente, as diversas Constituições deixaram de impor as sandálias aos Menores e aos Capuchinhos, e os sapatos aos Conventuais, mas tais disposições só foram tiradas depois do Concílio, sendo que não é estranho encontrar Conventuais com sandálias e barba, Menores com sapatos, e Capuchinhos sem barba.

Enfim, passada a rigidez dos últimos séculos, fazemos votos, então, de não perdermos o espírito dos inícios, quando, daquela época, pela forma e pela cor, se insistia no aspecto da pobreza e da aspereza dos tecidos e nas cores naturais do cinza e da terra, sinal de humildade e penitência.

Mesmo que a este propósito, São Francisco tenha escrito na Regra que os ministros poderiam proceder "diversamente segundo Deus" (RB 2).

Por Frei Tomás Gálvez, OFMConv. (in memoriam)
Revista San Francesco - giugno 2004, p. 40-43.
Trad. Frei Marcelo Veronez, OFMConv.

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