VEM SENHOR JESUS!

"Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não incorre na condenação, mas passou da morte para a vida". (Jo 5,24).

SEJAM BEM VINDOS À ESSA PORTA ESTREITA DA SALVAÇÃO

"Uma só coisa peço ao Senhor e a peço incessantemente: é habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida, para admirar aí a beleza do Senhor e contemplar o seu santuário". (Sl 26,4).
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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

PRECISAMOS APRENDER A SER CONDUZIDOS PELO ESPÍRITO SANTO...


PRECISAMOS APRENDER A SER CONDUZIDOS PELO ESPÍRITO SANTO...

Digo, pois: deixai-vos conduzir pelo Espírito, e não satisfareis os apetites da carne”. (Gl 5,16).

A vida natural nos leva ao encontro da morte todos os dias, mesmo que não queiramos; por outro lado, a fé vivida a cada instante nos leva em Cristo Jesus à vida eterna. Esse sempre foi e sempre será o desejo de todo ser vivente, que tem a liberdade de pensar e agir para que a vida seja sempre vida, e por isso, mantém sua fé viva no filho de Deus, que morreu e ressuscitou nos abrando as portas do Reino dos Céus. Ora, mesmo que não tenha fé, ninguém que vive neste mundo deseja a morte ou pensa nela a todo instante; ao contrário, todos, que creem em Deus ou não, desejamos uma vida de saúde, felicidade e paz; a não ser que tudo o que faz da vida o leva morbidamente ao fim.

Em sua carta aos Romanos (cf. Rm 8,1-17), são Paulo, escreve sobre a necessidade que temos de nos deixar conduzir pelo Espírito Santo de Deus, para atingirmos a perfeição desejada pelo Senhor, e que faz parte de seu plano para a nossa salvação. Mas, como podemos ser conduzidos pelo Espírito Santo de Deus, para obtermos tal salvação, nós que vivemos em meio a tantos pecados e tragédias advindas deles, que às vezes nos sentimos até incapazes de crer? Ora, ao longo da história da salvação, encontramos os patriarcas, os profetas, os reis e todos os santos fiéis que, por seguirem Cristo e se moldar à sua perfeita obediência se deixando conduzir pelo Espírito Santo, fizerem em tudo a sua vontade e desse modo nos revelaram como Deus age para realizar o seu plano salvífico em nossa vida, que significa nos levar ao convívio com Ele em sua glória por toda a eternidade. Vejamos por seus exemplos com Deus agiu, mostrando-lhes como deveriam se portar em sua presença desde já para obterem esse seu divino favor.

Em Abraão, Deus nos ensinou que a fé salvífica, nasce do encontro com Ele e da permanência Nele, por uma especial visita Dele à cada um de nós, como aconteceu com Abraão, nosso pai na fé. “A palavra do Senhor foi dirigida a Abrão, numa visão (um toque interior do Senhor), nestes termos: “Nada temas, Abrão! Eu sou o teu protetor; tua recompensa será muito grande”. Abrão confiou no Senhor, e o Senhor lho imputou para justiça”. (Gn 15,1.6). Ora, o Senhor é perfeitíssimo em todas as suas obras, ninguém escapa ao seu chamado, à sua visita, até mesmo aqueles que o negam (cf. Is, 40,26). Isto porque Deus “deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade”. (1Tm 2,4). À Abraão e à sua posteridade na fé, Deus revelou que a sua salvação se estenderia sobre todas as nações e assim aconteceu (cf. Gn 17,1-6).

Em Moisés, Deus nos deu a lei perfeita da liberdade, o conhecimento da verdade escrita em tabuas de pedra e nos corações, e assim fez uma aliança de amor com todos fiéis de todos os tempos, e a selou com estes santos mandamentos, de tal modo que seguir os santos mandamentos é seguir o Senhor mesmo. Já em todos os profetas, Deus revelou a ação direta do Espírito Santo, como rezamos no credo: “Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida e procede do Pai e do Filho e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, Ele que falou pelos profetas”. Por isso, as profecias se cumpriram e se cumprirão até o final dos tempos.
Em Maria, Mãe de Jesus, Deus fez-se cumprir todas as promessas e profecias que havia feito aos seus antepassados no Antigo Testamento; e o Espírito Santo, terceira Pessoa da Santíssima Trindade, foi esse regente eterno que realizou o Magnificat do Senhor em sua pobre serva, por isso, “todas as gerações a proclamarão bem-aventurada”, porque o Senhor lhe fez grandes coisas, como o anjo mesmo lhe disse: ”O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus”. (Lc 1,35). Pois, como o fez Abraão, ela também acreditou e Deus se fez Carne em seu ventre santo e habitou entre nós. (cf. Lc 1,26-38).

Por fim, Jesus atribuiu ao Espírito Santo todas as suas Palavras e ações e o chamou de dedo de Deus (cf. Lc 11,20; Mt 12,28;Ex 31,18). E ainda nos confidenciou: “Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas, porque vou para junto do Pai. E tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, vo-lo farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Qualquer coisa que me pedirdes em meu nome, vo-lo farei”. (Jo 14,12-14). Também disse, quando formos perseguidos por sua causa: ”Gravai bem no vosso espírito de não preparar vossa defesa, porque eu vos darei uma palavra cheia de sabedoria, à qual não poderão resistir nem contradizer os vossos adversários”. (Lc 21,15). Por sua vez, São Paulo, falando sobre nossas orações, escreveu: “Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis. E aquele que perscruta os corações sabe o que deseja o Espírito, o qual intercede pelos santos, segundo Deus”. (Rm 8,26-27).

Em suma, recebemos o Espírito Santo no Sacramento do Batismo (cf. Jo,3,3.7) para sermos conduzidos por Ele sempre (cf. Gl 5,16-17), por isso, precisamos aprender a ouvir o Espírito Santo em nós, como o ouviam os patriarcas, os profetas, Jesus e os apóstolos e todos os que seguem o Senhor no caminho da vida eterna (cf. At 5,32; Jo 15,26-27). Pois, de fato, se nos deixarmos conduzir pelo Espírito Santo de Deus, seremos herdeiros do Reino dos Céus, porque é para o Reino que Ele está nos conduzindo (cf. Rm 8,9-17). Pois o Espírito é a Verdade e nos ensina toda a verdade a respeito de Cristo que nos dá a vida eterna (cf. Jo 16,13-15; 3,16-21).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.
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terça-feira, 17 de setembro de 2013

BUSCAR-ME-EIS, E ME ACHAREIS, QUANDO ME BUSCARDES DE TODO CORAÇÃO... (Jr 29,13)


BUSCAR-ME-EIS, E ME ACHAREIS, 
QUANDO ME BUSCARDES DE TODO CORAÇÃO... (Jr 29,13)


Pensando bem, estamos sempre em busca de algo que nos faça viver o que nos convém ou o que nos propomos na existência. Todavia, nem sempre encontramos esse algo, objeto do nosso desejo, porque no mais das vezes, nem sequer perguntamos a Deus se esse algo procurado faz parte dos seus planos para a nossa salvação. E quando descobrimos isso, a tendência é de nos frustrarmos ou até nos revoltarmos, porque as coisas não aconteceram como desejávamos ou ainda como tínhamos planejado. Não podemos esquecer que estamos a caminho da eternidade e que essa eternidade já se faz presente aqui; e é aqui que a começamos viver, pois é em Deus que nós “vivemos, nos movemos e somos” (cf. At 17,28); ou sem Ele. (cf. Mt 7,21-23).

Quem poderá dizer: por que eu nasci? “Por que não morri no seio materno, por que não pereci saindo das entranhas de minha mãe?” (Jó 3,11). Talvez todos nós tenhamos essas indagações, mas não temos resposta convincente e definitiva para elas fora da vontade de Deus. Aqui não se trata de pessimismo ou egoísmo, trata-se apenas de que, por não sermos autossuficientes, mas sim, dependentes, nos tornamos frágeis e insuficientes por nós mesmos. E por causa dessa nossa contingência, nos tornamos seres inseguros, imaturos, inclinados às concupiscências e ao mal que está no mundo. Com efeito, diz o Senhor no Livro de Sabedoria: “Não procureis a morte por uma vida desregrada, não sejais o próprio artífice de vossa perda. Deus não é o autor da morte, a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma. Ele criou tudo para a existência, e as criaturas do mundo devem cooperar para a salvação. Nelas nenhum princípio é funesto, e a morte não é a rainha da terra, porque a justiça é imortal”. (Sab 1,12-15).

Então, o que fazer diante tal constatação? Creio que só há uma resposta que nos ajuda a compreender melhor a vida, fazer aquilo o que Deus nos ensina: ”Já te foi dito, ó homem, o que convém, o que o Senhor reclama de ti: que pratiques a justiça, que ames a bondade, e que andes com humildade diante do teu Deus”. (Miq 6,8). Pois não somos frutos do acaso, visto que o acaso não responde ao nosso desejo de vida permanente. Assim, entendemos que, o fato de existirmos aponta para um devir que não tem fim, isto é, a vida não se resume ao limite no qual estamos, mas, ao contrário, para além do que somos, existe toda uma eternidade que nos envolve. Ela é esse mistério divino, que nos responde a tudo pelo sofrimento, morte e ressurreição de Jesus Cristo, e nos faz compreender que por sermos “imagem e semelhança” de Deus, também somos eternos como Deus é. Desse modo, todos os mistérios que se nos apresenta à nossa experiência, nos são revelados pela fé no Filho de Deus, que nos amou e se entregou por nós, para que tivéssemos a salvação, a vida eterna Nele com Ele e para Ele.

Qualquer experiência de fé fora da cruz de Jesus, não conduz a ressurreição, porque para os filhos de Deus, a cruz de Cristo é o caminho perfeito da liberdade e da felicidade dos justos, ou seja, daqueles que foram justificados pelo sangue do “Cordeiro de Deus imolado que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). O próprio Senhor nos deu esse ensinamento: Jesus tornou a dizer-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: eu sou a porta das ovelhas. Todos quantos vieram antes de mim foram ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os ouviram. Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim será salvo; tanto entrará como sairá e encontrará pastagem. O ladrão não vem senão para furtar, matar e destruir. Eu vim para que as ovelhas tenham vida e para que a tenham em abundância”. (Jo 10,7-10).

Com efeito, São Paulo nos ensina que a fé que nasce da cruz do Senhor nos foi dada pelo Sacramento do Batismo, eis o que ele diz: “Ou ignorais que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na sua morte pelo batismo para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova. Se fomos feitos o mesmo ser com ele por uma morte semelhante à sua, sê-lo-emos igualmente por uma comum ressurreição”. (Rom 6,3-5).

Desse modo, entendemos que se unir a Cristo Jesus pelo batismo nesta vida é encontrar-se com o próprio Deus e permanecer Nele, pois assim nos ensinou o Senhor: “Se me conhecêsseis, também certamente conheceríeis meu Pai; desde agora já o conheceis, pois o tendes visto. Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta. Respondeu Jesus: Há tanto tempo que estou convosco e não me conheceste, Filipe! Aquele que me viu, viu também o Pai. Como, pois, dizes: Mostra-nos o Pai... Não credes que estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que vos digo não as digo de mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, é que realiza as suas próprias obras. Crede-me: estou no Pai, e o Pai em mim. Crede-o ao menos por causa destas obras”. (Jo 14,7-11). “Eu e o Pai somos um”. (Jo 10,30).

Portanto, escutemos o profeta Isaías: ”Buscai o Senhor, já que ele se deixa encontrar; invocai-o, já que está perto. Renuncie o malvado a seu comportamento, e o pecador a seus projetos; volte ao Senhor, que dele terá piedade, e a nosso Deus que perdoa generosamente. Pois meus pensamentos não são os vossos, e vosso modo de agir não é o meu, diz o Senhor; mas tanto quanto o céu domina a terra, tanto é superior à vossa a minha conduta e meus pensamentos ultrapassam os vossos. Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão”. (Is 55,6-11).

Por fim, meditemos o que diz o primeiro mandamento da Lei de Deus: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças”. (Dt 6,5). E como é amar a Deus assim? São João nos responde a essa pergunta com perfeita maestria: Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus: se amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos. Eis o amor de Deus: que guardemos seus mandamentos. E seus mandamentos não são penosos, porque todo o que nasceu de Deus vence o mundo. E esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé”. (1Jo 5,2-4). Logo, “buscar a Deus de todo coração” é unir-se a Cristo Eucarístico e permanecer fiel a Ele até o fim, pois o Senhor assim nos exortou: ”Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim”. (Jo 6,54-57). Ficai, atentos, pois: “Aquele perseverar até o fim, será salvo”. (Mt 10,22b).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A ESCADA DOS MONGES...


A "ESCADA DOS MONGES"...

A Lectio Divina é uma “caminhada” de quatro passos básicos:

      1) LECTIO – leitura
      2) MEDITATIO – meditação
      3) ORATIO – oração
      4) CONTEMPLATIO – contemplação

Esses quatros passos da Lectio Divina que hoje conhecemos foram assim definidos por volta do ano 1150 pelo monge cartuxo Guido em um pequeno livro chamado A escada dos monges. Neste livro o monge Guido expunha a sua teoria dessa forma: “Certo dia durante o trabalho manual, ao refletir sobre a atividade do espírito humano, de repente vi em minha mente a escada dos quatro degraus espirituais: a leitura, a meditação, a oração e a contemplação. Essa é a escada pelo qual os monges sobem da terra ao céu. Está certo, a escada ter poucos degraus, mas é de uma altura tão imensa e tão incrível que enquanto seu extremo inferior se apoia na terra, a parte superior penetra nas nuvens e investiga os segredos do céu. (...).

A leitura é o estudo assíduo das Escrituras, feito com espírito atento. A meditação é uma atividade diligente da mente que, com ajuda da razão busca o conhecimento da verdade oculta. A oração é o impulso fervoroso do coração à Deus, pedindo que afaste os males e conceda coisas boas. A contemplação é uma elevação da mente sobre si mesma que, apoiada em Deus, saboreia as alegrias da doçura eterna.”.

     1)      LEITURA “O que eu leio...”

Deve ser uma leitura pausada, atenta, como que “degustando” a Palavra. “Como é doce ao paladar vossa palavra, mais doce do que o mel na minha boca!”. “Saboreai e vede como o Senhor é bom” (SL 118, 103).

É importante abrir o coração e suplicar o auxílio do Espírito Santo para não cairmos numa racionalização. Cuidado para não manipular a Palavra de Deus, ou pensar numa 3ª pessoa! Não, isto é o que Deus fala pra MIM neste MOMENTO da MINHA HISTÓRIA PESSOAL! Toda a Escritura nos revela Deus, mas sobretudo olhamos para os Evangelhos, pois através dele podemos conhecer os SENTIMENTOS DO FILHO, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nesta hora da leitura eu não vou conduzir nada, vou deixar-me guiar pelo Espírito Santo, ficar atendo para onde (qual trecho) Ele vai fixar o meu coração. Pode ser num determinado versículo, numa determinada frase ou até mesmo numa simples palavra. Numa atitude de FILIAL ABANDONO deixar o coração totalmente vulnerável (vulnera em latim= chaga), deixar-se chagar por Deus como Nosso Senhor na Cruz. Ali, onde meu coração se sentiu fixado devo parar, aprofundar, insistir... “Tua palavra é lâmpada para os meus passos.” Pronto! Abriu-se a porta e eu devo entrar, é isto que Deus quer me falar hoje. De repente, sem dar conta, já estou no 2º passo que é a...

     2)     MEDITAÇÃO “O que me diz...”

Na meditação eu devo percorrer este caminho que o Senhor me mostrou na leitura, como um peregrino que busca a Deus e não a sua própria vontade. “Sai da tua terra e vai aonde eu te mostrar”!
Podemos usar a imaginação, entrar naquela cena do Evangelho, colocar-nos no lugar do pecador, da prostituta, dos fariseus e hipócritas, do filho pródigo, e porque não, do filho mais velho, que não compreendeu a misericórdia do Pai. Tudo vai depender do caminho que o Senhor tem para nós naquele dia, naquele momento e que estamos vivendo; da fraqueza que precisamos aceitar, do pecado que precisamos nos arrepender, do apego que precisamos renunciar, do irmão que precisamos aceitar ou perdoar; da cura e do amor que nossa alma está sedenta, etc... Podemos imaginar as aves do Céu (Mt 6, 26), os lírios (v.28) do campo, o trigo, o Templo; podemos visualizar a expressão de Nosso Senhor, suas lágrimas (Jo 11, 35, Lc 19, 41b), sua compaixão (Lc 7, 13 e 15, 20), sua fome (Lc 4, 2), seu olhar (Mc 10, 21, Lc 22, 61), sua voz, seu silêncio (Mt 26, 63). Podemos transportar-nos para a barca na tempestade, para o Monte Tabor ou para o Calvário, podemos ser o Cireneu, Maria Madalena, João ou um dos soldados, enfim, podemos com o uso da razão e imaginação deixar a Palavra de Deus visível diante do olhar do nosso coração.

Na meditação, vamos colocar nossa mente, nossa imaginação, nossa razão a serviço do Senhor, sob o império da sua graça, do seu senhorio.

Importante lembrar de novo que Ele é quem toma as rédeas do nosso coração, na Lectio Divina, nós vamos apenas obedecendo, atraídos, arrastados (cf. Ct 1, 4), aí eu vou compreendendo o que Ele, o Amado, tem para mim, e o meu coração deseja então expandir-se num diálogo amoroso, falar com o Senhor e também ouvi-lo. Então, sem perceber eu já estou no 3º passo...

3 e 4) A ORAÇÃO E A CONTEMPLAÇÃO “O que eu digo e... o que mais...!

Na liberdade de filhos e herdeiros do Reino abrimo-nos para este diálogo com Deus Trino. Expomos para Ele nossos medos, nossas angústias, nossas revoltas, nossas dores, nossas carências, nossas limitações e dificuldades. Expomos também a sede de nossa alma (minh’alma suspira Sl 41, 23; Sl 62, 2) nosso desejo de conhecê-lo, de obedecê-lo, de imitá-lo, de servi-lo, de segui-lo.

Na oração esperamos do Senhor as respostas das quais necessitamos, esperamos que Ele direcione o nosso coração para o bem, para a justiça, para a santidade. Com o tempo, a nossa oração não permanece somente um DIÁLOGO, mas sobretudo um ENCONTRO de duas pessoas que se amam: DEUS e a ALMA, e isto é a contemplação, quando o mais íntimo de nós se encontra no mais íntimo de Deus, “minha vida está escondida em Cristo”. A oração e a contemplação vão nos transformando em outros CRISTOS, imprimindo em nós a sua mansidão, a sua imolação, a sua sede de salvar a humanidade, a sua verdade, a sua paz... “já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”.

Aprendemos a “ouvir” não só a voz do Senhor, mas também o Seu Silêncio, “sofre as demoras de Deus”. Nada mais difícil do que suportar a “nudez” da Palavra, quando parece que Ela nada nos diz e o nosso coração continua árido com uma terra seca. Consola-nos refletir que ninguém colhe no dia seguinte após ter semeado. A Lectio vai produzindo seus frutos em nós com o correr do tempo, e isso exige uma atitude assídua e comprometida de perseverança na leitura. A experiência nos fará transpor os sentimentos (gozo, consolação, secura) e encontrar o próprio Deus.

A contemplação seria esse “O QUE MAIS” do encontro entre a alma e Deus. Neste encontro o nosso coração é abrasado (nem sempre sensivelmente), frutificando na necessidade de uma autêntica conversão. É como um despertar para a graça. Os frutos da oração e da contemplação devem ser ENCARNADOS, ou seja, visíveis em nossa vida cotidiana, no nosso trato com os irmãos, os pobres, na nossa postura (interior e exterior) reverente ao próprio Deus, aos seus ministros e aos seus mistérios.

Paz e Bem!

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

SÉRIE MEDITAÇÕES: A SAGRADA TEOLOGIA



SÉRIE MEDITAÇÕES

A SAGRADA TEOLOGIA

A Sagrada Teologia é o estudo de Deus. Deus Santo, Deus Imortal, Deus de Poder. Senhor do céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis; doador de todos os dons, porque tudo lhe pertence inteiramente, e somente a Ele pertence. Ninguém pode conhecer a Deus em sua Essência, quando muito, podemos conhecê-lo pela fé, seja ela teológica, carismática, ou ainda a fé natural, isto porque Deus se dá conhecer também por meio de suas obras.

Assim sendo, todo conhecimento que temos de Deus é revelação que Deus faz de Si mesmo, seja por suas obras, todas elas maravilhosas; seja por meio de Sua Palavra comunicada na Lei e nos Profetas, seja inda pela experiência de fé do seu povo, e seja, principalmente pelo seu Verbo que se fez Carne, no seio da Virgem Maria, e habita no meio de nós. Pois Jesus Cristo é o ápice da revelação divina; tudo o que Deus quis revelar nos últimos tempos, o fez por meio do Seu Filho amado.

A sagrada Teologia apoia-se, como em seu fundamento perene, na Palavra de Deus escrita e na sagrada Tradição, e nela se consolida firmemente e sem cessar se rejuvenesce, investigando, à luz da fé, toda a verdade contida no mistério de Cristo. As Sagradas Escrituras contêm a palavra de Deus, e, pelo fato de serem inspiradas, são verdadeiramente a palavra de Deus; e por isso, o estudo destes sagrados livros deve ser como que a alma da sagrada teologia. Também o ministério da palavra, isto é, a pregação pastoral, a catequese, e toda a espécie de instrução cristã, na qual a homilia litúrgica deve ter um lugar principal, com proveito se alimenta e santamente se revigora com a palavra da Escritura”. (Constituição Dogmática Dei Verbum)

Portanto, estudar a Sagrada Teologia, guiados pelo Espírito Santo, firmes na fé e em comunhão com a Sagrada Tradição e o Magistério da Igreja, é a vontade de Deus para todos os seus filhos e filhas; a fim de que sigamos Jesus Cristo, seu Filho amado, praticando o que Ele nos ensinou, e vivendo como testemunhas de sua presença em nosso meio, como Ele mesmo disse: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou conosco todos os dias, até o fim do mundo”. (Mt 28,19-20).

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.


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terça-feira, 20 de novembro de 2012

SÉRIE MEDITAÇÕES: O AMOR, A VERDADE E OUTRAS VIRTUDES (CONTINUIDADE)...


SÉRIE MEDITAÇÕES

O AMOR, A VERDADE E OUTRAS VIRTUDES (CONTINUIDADE)...


JUSTIÇA

A Justiça dá a cada ser o que lhe é devido na medida certa...
Por isso, Ela busca sempre a verdade dos fatos, porque esta lhe dá a capacidade de ação para o bem estar de todos...
Repara o mal que de fato houve...
Pune o que devido, liberta o que preciso...
Assim é e sempre será a Justiça...
Destarte, só Deus é Justo, e por seu Filho Jesus Cristo,
Justifica todos os injustiçados... (cf. Mt 5,6)

PIEDADE

A Piedade é a verdade em oração no coração das almas santas...
Uma alma piedosa ama a Deus com profunda reverência...
Clama por sua clemência, e se põe à disposição de sua vontade...
Cresce na intimidade e no fervor, e sabe guardar com amor todas as pérolas divinas que lhes são confiadas, não as atirando aos porcos...
Todavia as multiplica pela oração,
Ornando com a unção divina e salutar as almas mais necessitadas...


A Fé é como um expectorante para a alma,
visto que põe para fora dela toda desconfiança,
firmando-a na esperança que não decepciona....
Isto porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações,
pelo Espírito Santo que nos foi dado...(cf. Rom 5,5).
A fé tudo alcança, porque obtém de Deus todo poder,
Por isso, tudo é possível ao que crer...

ESPERANÇA

A Esperança é alma gêmea da fé,
porque tem certeza do que não vê...
Diz o ditado popular: quem espera em Deus nunca cansa,
porque Deus não falha nunca...
A esperança também se chama convicção,
porque quem espera em Deus nunca duvida de suas promessas,
pois sabe que elas são o motivo e o fundamento de sua aliança conosco...

CARIDADE

A Caridade é o amor assistindo as necessidades,
reparando as injustiças e imperfeições dos homens...
Ela por sua vez é assistida pela Providência Divina,
que consola os corações caridosos pelo milagre do bem feito aos mais necessitados...
Ela é como que a mão do Senhor a socorre-nos em seu amor...
Pela caridade somos anjos de resgate...
Apoiando os caídos, assistindo os desvalidos,
libertando os oprimidos que o egoísmo de alguns mutilou...
A caridade nunca passa, até que cheguemos ao céu...
Todavia, não busque nela alguma salvação pessoal,
Pois ninguém é salvo pelas obras...
Porém, convém saber que as boas obras só existem,
porque fomos salvos por Jesus Cristo, o Filho de Deus...

TEMPERANÇA

A Temperança é o equilíbrio perfeito entre os desejos da carne e os do Espírito; isto porque a aspiração da carne é a morte; enquanto a aspiração do Espirito é a vida e a paz; pois a carne (concupiscência) não se submente à Lei de Deus e nem o pode, porque os que vivem segundo a carne rejeitam as graças do Espírito de Deus...

“Portanto, irmãos, não somos devedores da carne, para que vivamos segundo a carne. De fato, se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis, pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus”. (Rom 8,12-14).

SOBRIEDADE, MODÉSTIA

Em cada área do nosso ser existe a possibilidade do prazer, pois o dom de sentir prazer é um dom que Deus nos deu, e que gera em nós certa satisfação prazerosa, isto é, certa sensação de felicidade. Todavia, é preciso que haja equilíbrio em todos os nossos sentidos para que estas sensações não se transformem em fuga de nós mesmos, dos outros e de Deus; ou mesmo desemboquem nos vícios que levam ao precipício da perca de liberdade, porque toda sensibilidade carnal é passageira e fugaz, quando não equilibrada pela sobriedade.

A Sobriedade é a virtude que Deus nos deixou para não nos afastarmos do seu amor, que é a nossa eterna fonte de felicidade. É ela que nos equilibra e nos conduz à moderação no comer e beber; no pensar e falar; no olhar e sentir; no vestir e se portar. A sobriedade é prima irmã da modéstia, pois esta faz a festa da graça de Deus em nossas almas. (cf. Rom 12,16).

MANSIDÃO

Quem vive cultivando a virtude da Mansidão tem seu coração em Deus, que nos ensina por seu Filho amado, a nunca nos alterarmos em meio aos desequilíbrios dos homens (cf. Mt 11,28-30). Essa virtude vem também acompanhada de uma promessa, os mansos possuirão a terra, indício da posse do céu, terra eterna prometida por Deus aos filhos seus (cf. Mt 5,5; 2Ped 3,11ss).

INOCÊNCIA

A inocência nos torna imunes à todo tipo de perseguição e violência, porque todo inocente é livre e tem na inocência sua maior defesa. Alguém é inocente quando vive a verdade diante de Deus e dos homens, porque o fato de existir naturalmente já é a verdade em si. Todavia, precisamos vive-la com ela é, transparente sempre, como o próprio Deus. Os mais temidos dos homens são os inocentes, porque até mesmo o seu silêncio causa tortura aos seus algozes. Por isso, todo inocente é invencível, pois nem a morte o poderá destruir.


PENITÊNCIA

Jesus começou seu ministério nos ensinando a fazer penitência: "Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; fazei penitência e crede no Evangelho”. (Mc 1,15).

Como vimos nesse ensinamento do Senhor, a penitência é o reforço da fé, pois o verdadeiro arrependimento precisa de penitência para que haja verdadeira conversão. Não basta dizer, “creio em Jesus Cristo”; pois, a fé é muito mais do que uma simples afirmação; ela precisa do esforço da alma penitente para se firmar e crescer na graça santificante, e dar os frutos da adesão ao Senhor, por meio da vivência do seu evangelho. Fazer penitência é vencer-se a si mesmo, como nos ensinou São Francisco de Assis, em sua décima Admoestação: “O pior inimigo do homem é ele mesmo, vence-te a ti mesmo e vencerás todos os teus inimigos visíveis e invisíveis”. Porquanto, ajuda-nos Senhor a penitenciar-nos em tua presença, pois sem Ti nada podemos fazer (cf. Jo 15,5).

PRUDÊNCIA

A Prudência é a aliada que perpassa todas as outras virtudes...
Por ela ninguém erra...
Por ela evita-se a dúvida atroz e o desengano...
Porque a Prudência nos faz atentos, nos dá alento para decidirmos somente pela vontade de Deus...
Desse modo, Ela é o discernimento perfeito e a razão de ser do equilíbrio de todas as outras virtudes em nossa vida...

COERÊNCIA

A Coerência é a autêntica vivência da fé, é ela a despenseira de todas as graças, para darmos os frutos de santidade que o Senhor nos concede na Santa Comunhão. Ela é o motivo de sermos recebidos e atendidos diante de Deus. Por ela somos livres desde já de todo julgamento diante do tribunal do Senhor.

É a Coerência que ilumina nossas almas com a luz que nunca se apaga e por isso, se torna nosso escudo de proteção para todos que a vivem. Ela põe por terra toda falsidade, porque faz valer a verdade e a autoridade divina em nossa vida. Foi pela virtude da coerência que Natanael foi identificado por Jesus e recebeu dele o mais belo elogio entre os apóstolos, e uma especial revelação do Senhor. (cf. Jo1,43-51).

O QUE DIZER AINDA MAIS A RESPEITO DAS VIRTUDES?

Todas as virtudes com que Deus nos criou...
Foram-nos concedidas para permanecermos fieis ao seu amor,
E gozarmos da liberdade infinita em sua Presença bendita...
Por isso, abusar da misericórdia e da bondade divinas...
É deixar de viver no santo temor...
É perder-se na agonia e na dor de não amar o Senhor,
e não se deixar amar por Ele eternamente...

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.


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sábado, 21 de abril de 2012

CRÔNICA DE MINHA ALMA - INSEGURANÇA




Insegurança é a sensação que sentimos quando nos afastamos de Deus, porque só Ele nos mantém em plena posse da vida; e quando isso acontece, nos sentimos à mercê de nossas próprias forças ou daquilo em que confiamos como sustentáculo para o nosso viver. Assim, todo ser que não se segura em Deus, impreterivelmente é inseguro e de frágil constitucionalidade, apesar de manter a aparência de instabilidade em sua insegurança; pois, em nossa naturalidade, somos apenas um sopro de vida e nada além disso, pois é o que temos, e só o temos porque rebemos.

Obviamente, existem aqueles que se acham donos de tudo e capazes de tudo; e assim agem, enquanto têm tempo, saúde, juventude, dinheiro e todas as possibilidades que a vida natural nos dá. Mas, à primeira derrocada, sentem-se acuados e partem para o ataque como forma de autoproteção, como que, querendo dizer: sou capaz de me defender custe o que custar; é como se o instintivo nessa hora atingisse o ponto mais elevado de superação.

Todavia, temos que admitir, tudo tem fim, até aquilo que nos mantém seguros por nós mesmos. Pensando bem, ninguém consegue vencer sempre, por mais esperto que seja. Ora, isso é uma lição de vida que Deus nos dá, para que nenhuma criatura humana possa se ufanar e se achar superiora às demais, pois naturalmente somos dependentes uns dos outros; e reconhecer isto é o que nos faz ser profundamente solidários uns com os outros e capazes de todo o bem. Caso contrário, nos tornamos “repletos de toda espécie de malícia, perversidade, cobiça, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade”; aumentando, com isso, o abismo de insegurança que a falta de comunhão com Deus nos traz.

Então, o que é que nos faz sentir seguros interiormente e exteriormente diante dos homens, de nós mesmos e de Deus? Deus e somente Ele, pois é assim que nos ensina a Sagrada Escritura: “Já te foi dito, ó homem, o que convém, o que o Senhor reclama de ti: que pratiques a justiça, que ames a bondade, e que andes com humildade diante do teu Deus.” (Miq 6,8). E ainda: ”Feliz o homem que não procede conforme o conselho dos ímpios, não trilha o caminho dos pecadores, nem se assenta entre os escarnecedores. Feliz aquele que se compraz no serviço do Senhor e medita sua lei dia e noite. Ele é como a árvore plantada na margem das águas correntes: dá fruto na época própria, sua folhagem não murchará jamais. Tudo o que empreende, prospera”. (Sal 1,1-5).

De fato, a causa maior da insegurança humana é o pecado que consiste no desligamento de Deus; pois toda vez que o ser humano peca, sente isso imediatamente, tenha ele fé ou não, porque o pecado humano é um veneno infernal que lhe intoxica a alma tirando dela toda paz e felicidade. Quando pecamos nossa alma fica entorpecida e insensível para com Deus e tudo o que diz respeito à Ele, porém, terrivelmente inclinada para todo tipo de maldade e toda espécie de vícios, tornando-se profundamente indiferente, apática ou repleta de ironia; gerando-se nela uma espécie de tristeza mórbida que com o tempo se transforma em depressão ou outras doenças psicossomáticas como insônia, impaciência, angústia, solidão,fobias, etc.

Portanto, ninguém que vive em estado de pecado mortal (pecados contra os 10 mandamentos da Lei de Deus) é feliz ou sequer consegue aspirar essa graça, mesmo tendo no pecado alguma satisfação prófuga, isto é, passageira; porque a felicidade é fruto da comunhão com Deus, da satisfação em fazer a sua santa vontade; enquanto que o pecado mortal é uma ofensa grosseira e desligamento Dele, e, por isso mesmo, fonte de devassidão e do vazio existencial que leva o ser humano à infelicidade e à morte.

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.


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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

LECTIO DIVINA (A LEITURA ORANTE DA PALAVRA DE DEUS)




















LECTIO DIVINA
Por Helber Clayton*

Muitos já ensinaram sobre a Lectio Divina, sua origem, seus passos, seus objetivos. Esse tema é fácil de encontrar na Internet, seja em português, seja em qualquer outra língua. Leia especialmente "Scala Claustralium (A Escada dos Monges)".

Mesmo assim, muitos ainda pedem explicações sobre essa antiquíssima prática. Tentarei então, em pausas, descrever aqui minha própria experiência na prática da Lectio.

Muitos traduzem "Lectio Divina" como "lição" ou "leitura de Deus", "leitura orante da Palavra". Eu a chamo de "leitura sob a inspiração do Espírito", uma vez que a Escritura é a própria voz do Espírito de Deus, e é do Espírito que deve brotar a nossa oração quotidiana (Cf. Rm 8, 26).

Devo chamar a atenção, como estudioso das Letras, que entendo a "leitura" não apenas como uma intelecção de textos escritos, mas como um processo, que começa na decifração dos códigos linguísticos, sejam eles escritos ou não, verbais ou não verbais, e termina na produção de outro texto que flui da mente e do coração através das nossas faculdades, seja da voz, da escrita ou qualquer outra forma de expressão.

A Lectio Divina é um processo. Como diria o monge Guigo, uma escada. Que leva, em quatro passos, da terra ao céu.

Fontes da Lectio Divina

Partimos da premissa monástica de que a oração nasce da leitura assídua e diligente das Escrituras (Orígenes). A Palavra de Deus é a fonte por excelência da Lectio Divina. Dessa forma, a Liturgia das Horas, por ser composta basicamente de textos extraídos da Sagrada Escritura, além de conter, entre outros elementos, hinos, antífonas e escritos, lapidados na tradição viva da Igreja, é opção privilegiada para o exercício da Lectio Divina. Nesse processo comunicativo, nos colocamos primeiramente como receptores, o Espírito Santo como emissor da mensagem, e o principal meio para nos transmiti-la é a Escritura Sagrada.

Mas a voz de Deus ressoa em toda parte:

"Os céus proclamam a glória do Senhor,
e o firmamento, a obra de suas mãos;
o dia ao dia transmite esta mensagem,
a noite à noite publica esta notícia.

Não são discursos nem frases ou palavras,
nem são vozes que possam ser ouvidas;
seu som ressoa e se espalha em toda a terra,
chega aos confins do universo a sua voz." (Sl 18, 2-5)

Podemos ouvi-lo nos murmúrios da natureza, nos acontecimentos diários, nas obras da arte humana, lê-lo na história, nas canções, na catequese da Igreja... Para isso é necessário, antes de tudo, silêncio. Não apenas de ausência de palavras, mas de atenção e abandono, de renúncia de expectativas e (pré)conceitos, pois o Senhor irá falar. É a paz que ele vem anunciar (Cf. Sl 84, 9).

Lectio

Podemos dizer que a Lectio Divina começa, antes, com o esforço de Deus para comunicar-se conosco. É ele quem nos atrai, quem faz o nosso coração arder como aquela sarça no monte Horeb, faz com que nos aproximemos, e, do meio da sarça, nos chama pelo nome: "Moisés, Moisés!" (Cf. Ex 3, 1-6). E nosso primeiro movimento é dizer: "Eis-me aqui!” (Ex 3, 4). Quando, enfim, escutamos a voz de Deus, aí começa para nós a Lectio Divina.

À leitura, eu escuto, é que diz o monge Guigo II, explicando o primeiro degrau de sua escada. E, ao prestar atenção, trazemos o conhecimento de Deus para o nosso conhecimento. Decodificamos a mensagem divina para a linguagem humana. Acrescentamos informação do céu ao nosso entendimento terreno.

Através da Lectio, a razão busca sentidos para a mensagem, as explicações para as figuras de linguagem, a localização no espaço e no tempo, o contexto histórico, a intencionalidade discursiva. Colhemos palavras, frases, sentidos, como colhemos flores num jardim. A "leitura", porém, é apenas o primeiro degrau, a porta de entrada para os outros passos da Lectio Divina.

Meditatio

"Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração". (Lc 2,19)

Antes que Bruno, o Cartuxo, explicasse o sentido dos degraus, a Virgem já os praticava. Antes que os exegetas tentassem dar novo sentido ao logos e rhema de Platão, a mãe de Jesus já os demonstrava. Só conservando a Palavra e meditando-a no coração é possível trazer a Lei e os Profetas do seu contexto histórico para o atual; traduzir as metáforas para a linguagem corriqueira; transportar a teologia para a prática. É assim o Magnificat (Lc 1, 46-55): um canto baseado na escuta e meditação da Sagrada Escritura.

Na maioria das vezes, no entanto, nosso contato com Deus não passa do primeiro degrau, do mero entendimento. Temos uma enorme facilidade de esquecer as passagens da Escritura. Isto porque a mente tende a deletar aquilo que não damos serventia. Mesmo que sejam textos da Palavra de Deus.

Só escutar não basta. É preciso conservar a Palavra e meditá-la no coração.

Em vista disso, alguns escritores criaram uma espécie de sub-degrau para a Meditatio: a "Ruminatio" que é o trabalho de "conservar" a palavra na mente e no coração, através do retorno ao texto e até mesmo da memorização.

"Um Cristão deve meditar regularmente para não ser como os três primeiros terrenos da parábola do semeador". (CIC 2708).

Oratio

Chegamos ao momento da oração.
Como é isso? Só no terceiro degrau oramos de fato?
Mas é o movimento natural da vida!

Quando nascemos, qual a primeira coisa que fazemos antes de soltar o choro? Resposta: inspiramos o ar. Claro! antes de nascer, o oxigênio que nos chegava era através do sangue da mãe. Ao nascer inspiramos pela primeira vez. Ao inspirar, o ar chega aos pulmões, e, através dos pulmões, leva oxigênio a todos os órgãos do corpo.

E então, descobrimos a necessidade de algo que ainda não compreendemos. Por não compreender, choramos. É a única coisa que sabemos fazer. Descobrimos depois que aquela necessidade que nos levou ao choro era de conforto, carinho, alimento...

A Lectio Divina é como esse processo do nascimento.

A leitura é a inspiração. A meditação é quando o oxigênio é espalhado pelo corpo. A oração é o choro.

No Ofício das Leituras de sexta-feira após as cinzas lemos que: "como uma criança que, chorando, chama sua mãe, a alma deseja o leite divino, exprime seus próprios desejos pela oração e recebe dons superiores a tudo que é natural e visível."(Pseudo-Crisóstomo). Porque não sabemos orar como convém, emitimos, após inspirar, gemidos inefáveis (Cf. Rm 8,26). Esses gemidos são a expressão do coração que ouviu e mergulhou no mistério. E não importa o tipo, a forma ou a fórmula da expressão. O que importa agora é dizer a Deus...

Contemplatio

"Como uma criança que a mãe consola, sereis consolados em Jerusalém." (Is 66, 13) Desde sempre entendi a"contemplatio" como "consolatio". Aqueles que choram pela oração são consolados na contemplação. Bem-aventurados estes (cf Mt 5,4). A contemplação é a resposta à nossa oração. É a manifestação sensível da presença de Deus por meio do seu Espírito, que entra no cenário da nossa vida através da porta aberta pela oração. É obra daquele Paráclito prometido por Jesus, que haveria de ensinar toda a verdade (cf. Jo 16, 13), não da maneira racional, mas do suave consolo da fé. Não devemos atribuir à palavra "contemplação" apenas o seu sentido mais usual que é de "olhar com atenção", mas o seu segundo sentido: "dar a; doar a; fazer mercê a". É Deus quem nos dá a sua graça, e nós somos "contemplados".

Penso que é esse o verdadeiro sentido que Guigo, o cartuxo, quis dar ao último degrau da sua escada, aquele que toca o céu, pois assim o descreve: "E o Senhor, cujos olhos são fixos nos justos e cujos ouvidos estão não só atentos às suas preces (cf. Sl 34, 16), mas presentes nelas, não espera a prece acabar. Pois, interrompendo o curso da oração, apressa-se a vir à alma que o deseja, banhado de orvalho da doçura celeste, ungido-a dos perfumes melhores”.

“Ele recria a alma fatigada, nutre a que tem fome, sacia a sua aridez, lhe faz esquecer tudo o que é terrestre, vivifica-a, mortificando-a por um admirável esquecimento de si mesma, e embriagando-a, sóbria a torna." (Scala Claustralium VII). Assim, pela contemplação somos impregnados por esse orvalho do céu, de modo a buscarmos, mais vivamente, andar conforme a vontade daquele que veio em nós habitar.

 "Não cesso de agradecer a Deus por vós, pela graça divina que vos foi dada em Jesus Cristo. Nele fostes ricamente CONTEMPLADOS com todos os dons, com os da palavra e os da ciência, tão solidamente foi confirmado em vós o testemunho de Cristo." (I Cor 1, 4-6)

A Lectio Divina e a Vida

Em verdade a Lectio Divina é um processo que envolve toda a nossa vida, desde o momento que aderimos à fé, até o último dia de nossa caminhada. Foi assim para os discípulos de Jesus. Eles, atendendo ao chamado do mestre, passaram a ouvi-lo, a saber o sentido das parábolas, a ver os seus atos, seus exemplos de vida. Fizeram uma verdadeira "leitura de Cristo".

Também, a exemplo da Mãe, conservavam tudo que tinham visto e ouvido, meditando em seus corações (cf. Lc 2, 19). Tanto que mesmo depois de muitas décadas lembravam de detalhes das palavras e das obras do Mestre e os contaram em seus Evangelhos.

Seguindo a Cristo pelos montes onde costumava orar e inflamados pelo seu exemplo, sentiram o ardente desejo de também aprenderem a rezar, e pediram ao Senhor: "ensina-nos!" (Lc 11,1). Unânimes na oração (Cf. At 1, 14), permaneceram no Cenáculo juntamente com Maria, mãe de Jesus, até o dia de Pentecostes.

Tendo chegado o momento aguardado, subiram ao degrau da contemplação ao serem revestidos com os dons do Espírito Santo. Então compreenderam, pelo dom da fé, os sentidos da paixão e ressurreição do Senhor e a razão verdadeira do chamado: o anúncio do Evangelho a todos os povos. E, vivendo a vida de Cristo, sofrendo os mesmos ultrajes, açoites e martírios, foram dignos de serem chamados "Cristãos", desde Antioquia (Cf. At 11,26) até os dias de hoje.

Se do Senhor as palavras ouvirmos, se delas extrairmos o significado para nossa vida, se juntos com ele subirmos ao monte da oração, se sua vida tornar-se impregnada em nós a ponto de sermos "cristãos" de fato, não apenas em momentos determinados, mas em todo o tempo, então podemos dizer que somos discípulos de Jesus, e fazemos da nossa vida uma viva e verdadeira Lectio Divina.

Paz e Bem!

*Leigo, casado, licenciado em Letras pela
Universidade do Estado da Bahia – UNEB

Fonte: www.oratio.blogspot.com (27/08/2010).
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